A ALMA GEMEA por Cacilda Salete, Sissi

A ALMA GEMEA

“Deus faz as almas gêmeas e as solta pelo mundo, minhas filhas”. Quando ouviu esta frase, Lurdinha recordou-se da professora Nereide, no seu terceiro ano primário. Era muita coincidência o professor Rangel dizer a mesma coisa, ou será verdade que existem almas gêmeas?

Ela estava no curso Normal, estudando à noite e o Professor Rangel lecionava desenho para as normalistas. Sua postura era embasada no ideal do educador e, apesar da idade avançada, trazia na expressão sublime, a candura do olhar e nos gestos cansados, a paciência do ancião. O velho professor fazia os traços na lousa já com certa dificuldade, verbalizando sobre os desenhos, sempre acrescidos da Bandeira Nacional.

Lembrava-se da professora que teve aos nove anos. Dona Nereide havia estudado em escola publica e Lurdinha nunca entendeu direito porque ela não era religiosa. Não freqüentava igreja mas sempre iniciava sua aula com a oração do Pai Nosso pedindo a todos que abaixassem a cabeça. Com voz baixa e compassada ia orando e percorrendo as carteiras de tal maneira que, sobre a cabeça de cada aluno, tocava delicadamente, como se os estivesse abençoando. Ao termino do Pai Nosso, Dona Nereide punha-se de pé a frente da classe e dizia:

“Nunca se esqueçam … nós somos filhos de Deus. Somos belos, inteligentes e tudo podemos para o bem. Vocês crescerão e encontrarão a alma gêmea, pois Deus faz as almas gêmeas e as solta pelo mundo. É preciso saber achá-las. Querer é poder e Hei de vencer, ao que a classe, em coro, repetia.”

Essa professora marcou muito a vida de Lurdinha, pois apesar dos poucos recursos disponíveis para a aprendizagem, ela sempre usou da criatividade e da participação dos alunos.

O fato e que Lurdinha, desde que ouviu esta frase começou a sonhar com a sua alma gêmea. Como seria possível este milagre!

Ela morava num bairro pobre da cidade de Fortaleza, capital do Ceará e pensava… onde estará a minha alma gêmea? Se isto fosse verdade, a minha alma gêmea teria que ser negra, pobre e filha de pais separados.

Sua religiosidade não a deixava transgredir pelo preconceito mas não raro pegava-se recriminando a sua própria cor. Também não concordava em, no futuro, se casar com alguém que não fosse da sua cor. E nos muitos questionamentos de um coração jovem não encontrava resposta para tais indagações.

Nos poucos momentos em que passava sozinha no quartinho de dormir, dividido com sua Irma menor e a tia, além das tarefas do curso, lia quando podia a revista “Capricho” que a vizinha lhe emprestava e fora esse lazer sua rotina era simples.

Pela manhã cuidava da casa, da limpeza, das roupas, do almoço e da cozinha. A tarde tomava conta dos filhos da vizinha ganhando algum dinheiro que lhe ajudava nos estudos. O jantar era a indispensável sopa com peixe e sobras do almoço, cuja limpeza das panelas ficava por conta da tia, que trabalhava durante o dia na farmácia do Senhor Honório.

Fazia o estágio do curso em duas tardes da semana e já ficava na cidade para as aulas da noite.

Morava longe da Escola Normal mas isto não era empecilho, afinal…” somos filhos de Deus, belos e inteligentes… Hei de Vencer… encontrarei a minha alma gêmea.”

Aos sábados, domingos e feriados ia a reza e as missas dominicais.

Sua mãe trabalhava na peixaria que enviava o produto para os hotéis de luxo. Mulher de estatura mediana e tipo magro por nada faltava ao serviço Lurdinha sempre achou que ela não encontrara a sua alma gêmea pois o seu pai havia deixado dela antes mesmo da conclusão do seu 3° ano primário. Dizia que tinha ido para São Paulo procurar emprego, mas desconfiava que isto não fosse verdade.

Para ela o Pai era um modelo… jovem… sorridente, sempre mostrando os lindos dentes. Vivia da pesca e com seus companheiros jangadeiros parecia realizado com o que fazia. Apenas um defeito… sempre deu a entender que a filha preferida era a menor, cinco anos mais nova, pois pelas poucas vezes de carinho revelado, era com a menor que brincava, colocando-a sobre os seus joelhos. Poucas são as lembranças de afagos feitos pelo seu pai. Apesar da aparência alegre para fora. dentro.de casa alguma coisa nao ia bem, concluindo que ele também não encontrara a sua alma gêmea.

Lurdinha conversava pouco, igual a todas de sua casa, inclusive sua tia Rosário que só falava o necessário. Já com seus 42 anos, cinco anos mais velha que sua mãe, não se casara e há muito, talvez até antes de Lurdinha nascer ela trabalhava na farmácia servindo muitas vezes de ajudante, baba e auxiliar da família do farmacêutico, Sempre foi muito prestativa mas também não achara a alma gêmea e talvez por desgosto amoroso, fechou-se para o mundo. As estórias que ouvia sobre a tia nunca estabeleciam elos; portanto, não se falava no assunto, apesar da curiosidade da jovem.

Lurdinha tinha um sonho, alias, dois: achar sua alma gêmea e ser professora, o que justificava o curso que escolhera.

Terminada a festa de formatura o problema era uma classe para lecionar. Foi quando o irmão do Senhor Honório, em ferias com a família, apareceu por Fortaleza. Gostaria muito de levar para Sao Paulo uma jovem que ajudasse Dona Iraci, sua esposa na espera do terceiro filho, que orientasse seus filhos nos estudos e desse uma ajudinha na farmácia que possuía no bairro do Butanta; Havia também a promessa de, caso conseguisse uma classe, lecionaria meio período.

Foi uma proposta relâmpago que movimentou a família para o estudo do caso. Referencias não faltavam pois como aliada tinha a tia Rosário que, pela primeira vez, se manifestou favoravelmente, até com alguns discursos que muito ajudaram na decisão da mãe.

O ano de 1.963 prometia muito.

Com os seus dezoitos anos, entre um borbulhar de pensamentos brotava-lhe também o desejo de encontrar o pai e por que não, se ele estava na cidade que agora também era dela.

No seu novo quarto em companhia da menina de dez anos, Lurdinha já estava se refazendo do impacto que Sao Paulo lhe causara. Após alguns meses de trabalho na casa da Dona Iraci e seu Arlindo ainda não tinha conseguido uma classe para lecionar.

Pouco tinha a reclamar da nova residência a não ser o fato da solidão, falta de amizades e saudades da mãe, principalmente.

Era grata à tia Rosário e se era tão difícil lecionar em São Paulo, imagine em Fortaleza,

Estes pensamentos a consolavam um pouco.

Correspondia-se com a família, contando de seus pequenos passeios na Cidade Universitária, Largo de Pinheiros e levou muito tempo para dar noticias de ter ido ao centro da cidade. Seus patrões eram bons e zelosos e Lurdinha, com toda a simplicidade e timidez, correspondia.

Certo dia, alguns jovens entraram na farmácia e pediram permissão para pregarem um cartaz do Cursinho do Grêmio, cuja propaganda era sobre o vestibular para diversos cursos. Dentre eles havia um rapaz negro que lhe deu um sorriso e agradeceu. Ela retribuiu e ficou fascinada, como nunca dantes houvera acontecido. Na sua cidade, flertava muito raramente, mas até acreditou que este fora um verdadeiro flerte e ficou feliz. Leu com atenção o cartaz e anotou o telefone.

Dias após, na sua saída para fazer a feira, telefonou discretamente e cheia de temores. Sem imaginar as conseqüências, perguntou sobre o curso e sobre ele, descrevendo a pessoa. Brincando, do outro lado, a voz se identificou. Era Newton, que alem de trabalhar na secretaria do cursinho e elaborar as apostilas, também fazia à noite a faculdade de Bioquímica, na USP

No final da conversa houve a promessa de que ele passaria pela farmácia, pois fazia parte do seu caminho para a faculdade, o que não custaria nada levar-lhe informes e apostilas.

Não tardou a acontecer o encontro pois quando Newton chegou na farmácia foi recebido pelo Senhor Arlindo e suas explicações sobre os cursos foram mais direcionadas para o farmacêutico do que propriamente para Lurdinha que, de cabeça baixa, não fazia nenhuma pergunta.Apenas meneava a cabeça em sinal de concordância.

Senhor Arlindo afinou-se com Newton e com os conhecimentos revelados pelo rapaz. Seu jeito de expor os fatos e comentar sobre a situação política do pais conquistaram seu Arlindo.

Newton combinava na estatura com Lurdinha, mas seu corpo era mais forte contrastando com o dela que lembrava o da mãe. Mas a cor da pele e a carapinha eram idênticas, até parecendo gêmeos, mesmo. O olhar e os dentes de Newton lembravam o pai. E… por onde será que ele andava? Como gostaria de ter a sua família por perto… que saudades da mãe… e o sonho de lecionar estava se afastando… Ficava nervosa quando pensava nisto.

O Senhor Arlindo foi quem puxou a conversa sobre a continuidade dos estudos de Lurdinha, estabelecendo condições dela estudar em casa com as apostilas fornecidas por Newton, as quais traria gratuitamente do cursinho. Ajudaria nas despesas e ate emprestaria o laboratório da farmácia para melhor compreensão da matéria.

Ela não poderia, por motivo nenhum, perder esta oportunidade.

Um novo sonho se instalou em sua cabeça imaginando-se na faculdade, morando no conjunto residencial da U.S.P., usufruindo de uma bolsa de estudos.

Esta caminhada durou três anos. Foram três vestibulares que Lurdinha tentou para conseguir entrar na universidade. Ah! Se não fossem os estímulos e apoios de Newton e seu Arlindo!

Repensando sobre a mudança de sua vida, constatou que Newton fora apenas um grande amigo que Deus pôs em seu caminho. Com o tempo percebeu que ele também pensava assim. Seus sonhos e ideais estavam voltados para a problemática brasileira, o que não lhe dava o direito de sonhar com mulher e filhos. Mas com ele aprendeu a perseverar, ter positividade e determinação na vida. Por vezes, conversando sobre assuntos “transcendentais” como ele dizia, vislumbrava entender que os paradigmas e preconceitos sobre valores prejudicam a trajetória das pessoas.

Em suas reflexões, constatou que o fato mais interessante e que ele lhe ensinou a ver a realidade da vida, o momento histórico de cada país e, para tanto, ate iniciou leituras sobre economia e sociologia.

Neste período o Brasil passava por urna grande crise política. E neste momento, Lurdinha estava entrando na faculdade de Bioquímica da U.S. P.

Após a adaptação inicial conheceu ate colegas do Norte e Nordeste. Não demorou muito para conseguir uma vaga no conjunto residencial e em seguida participar do movimento estudantil.

Engajara-se numa facção e como dizia:- não era ativista, nem festiva. Tinha consciência da sua classe social e lutava para provar a contradição do sistema, impedindo a dominação econômica e política. Participou dos movimentos da U.N.E. (União Nacional dos Estudantes) que na época arrastavam multidões com palavras de ordem “Abaixo o Imperialismo”, “Mais Escolas para o Povo”, ” Abaixo o Convenio MEC-USAID”. Como muitos, lia Brecht, Huberman, Darci Ri-beiro, J. Amado e as escondidas… Marx e Mao Tsé Tung.

Os movimentos estudantis pipocavam na Europa e nas Américas, principalmente a central e a do Sul. No seu grupo; Lurdinha tinha colegas colombianos, chilenos, peruanos, venezuelanos, porto-riquenhos, salvadorenhos e dominicanos. Retratavam países do terceiro mundo que compactuavam com a luta de classe. E foi por um, dentre esses colegas que ela se afeiçoou, não somente pela semelhança dos ideais, como também pelos propósitos de fraternidade universal.

Tudo tinha a ver. Movimento estudantil para uma reforma social, para haver melhor distribuição da renda, para uma vida mais digna ao ser humano.

E Hugo, o peruano, tornou-se seu companheiro.

Foram presos em dezembro de 1.968. Após a inquisição pelas forças armadas, os dois, como presos políticos, foram expulsos do país, pedindo asilo político para Salvador Allende, no Chile.

No inicio dos anos 70 foram para Puno, no Peru.

Pela própria circunstância, ficaram em Puno por mais de dez anos, convivendo com as supostas reformas agrárias que acometeram o país e também com as dificuldades emergentes de um pais pobre. Gradativamente foram substituindo a luta pelas reformas, pela reforma interior. Entenderam através dos revezes da vida que nada é por acaso e sim uma seqüência de coincidências, que devem ser analisadas. Também descobriram em Machu-Pichu algo de “transcendental”, lembrando Newton. Este algo estava intrinsecamente relacionado com o “ser” e não com o “ter”.

Em Puno dedicavam-se com afinco ao auxílio de parentes, situação que os levou a um crescimento espiritual, adquirindo uma tranqüilidade bem maior do que a advinda pela aquisição de bens materiais. Não foram poucas as vezes em que refletiam sobre as conseqüências do movimento e consolando-se concluíam que os “Revoltosos” não teriam a chance de levar o país para o progresso desejado.

Após a anistia, voltou ao Brasil em meados de 80, mas voltou so.

Seu retorno a Fortaleza encheu-lhe de esperanças para o seu novo mister e teve como companheira a Irma que já era olhada de outra maneira e não como uma concorrente ao afeto do pal.

Sobre seu pai pouco se soube, mas como seu coração já se enchera de compaixão pelas pessoas, sentia que não mais constituía um problema para ela,

Sua tia aposentada ficou com a casa que a mãe, antes de morrer, deixara para seu “usos e frutos”.

Terminou seu curso no exterior aos trancos e barrancos e conseguiu junto ao Ministério de Educação e Cultura sua titulação como equivalência de estudos.

Ha mais de 15 anos encontra-se em Fortaleza ministrando aulas na Universidade e mantêm uma equipe de voluntaries que se dedicam ao acompanhamento das suas “crianças”, como ela os chama, ou seja, um asilo de velhinhos que geralmente, além de carinho constante, são tratados com ervas medicinais e outras tantas alternativas utilizadas no Peru.

Lembra com saudades do Newton, a alma gêmea, o amigo correto que muito a ajudou na cidade grande e que mudou o rumo de sua vida; do Senhor Arlindo, outra alma gêmea, que soube compreender suas necessidades e lhe dar o apoio; Hugo, a alma gêmea que lhe abriu os olhos para os valores espirituais e todos aqueles velhinhos que, alem de serem seus filhos, avós, alunos, irmãos, foram colocados em seu caminho para, mais uma vez, provar que a afinidade e o amor é que destinem o sentido da alma gêmea e que só os corações generosos é que podem encontrá-las e entende-las.

CACILDA SALETE SILVA


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Uma resposta to “A ALMA GEMEA por Cacilda Salete, Sissi”

  1. Celia Bergamasco Says:

    Coisa linda Sissi ! Estou até chorando por encontrar a Lurdinha.
    Além da Beth da veterinária, ela foi uma das minhas procuradas.
    Abraços de sua vizinha do 610.

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