CRUSP 68….. por Francisco Weiss

CRUSP 68…..

Francisco Weiss

Você pega o ônibus para Pinheiros e desce lá na Iguatemi com a Pinheiros daí você se informa pega o Viação Vani que  vai para  Butantã –  Cidade Universitária. Desça no Conjunto Residencial  procure o prédio ao lado do restaurante se quiser pode dizer que você é meu primo. Pensei, não vou falar tenho que saber abrir meu próprio caminho,  sou do interior serei aceito . Você que é o primo do Paulinho muito prazer Jorge Fagalli fale ali com a “C”. Ele já sabia meu nome. A “C” era bem gostosinha mas não deu abertura preencheu a ficha e telogo. Desci a escada com a certeza de que eu poderia ficar alojado no Crusp. O Jorge Fagalli , creio, era da mesma ala política do meu primo que eu desconfio mas não garanto, era da JUC. Mais tarde aconteceu que o Jorge então presidente do DCE e o meu primo Paulinho, então presidente do Grêmio Politécnico, foram presos quando o DOPS prendeu todo mundo no encontro que houve lá em Ibiúna.

Foi simples assim que eu fui aceito no Crusp.

Creio que foi logo no primeiro ou segundo final de semana o cara chegou e foi logo falando você já foi na raia olímpica quer passear de barco? Prazer Chico Weiss, eu também sou Chico , Mallaman. Fomos os quatro. O  Chico era bom de manejo foi remando e eu ali qual papagaio de pirata,  olhando as duas colegas cruspianas, eu tentando me segurar botando pose, sem saber remar, me cagando para não cair do barco que era uma canoa tipo catraia que o Mallaman explicou que haviam comprado lá na represa de Guarapiranga  que por sinal naquela época andava meio seca.  E ele ainda cantava,  as duas moças fazendo coro “mai bonei leis ovar ze oxean mai bonei leis over zé si …ôhhh bring bek mai bonei tumí.”

No final de 1964 muita coisa já havia acontecido eu caí na vadiagem aprendi a remar e fazer caça submarina na raia olímpica,  fui acampar com a turma da estiva que era o Silvio Preto, o Chico Mallaman, o Alvaro e o Mineiro mas eles aceitavam penetras tipo o Bolha e eu . Só me lembro que no primeiro acampamento lá na praia do Guaiuba no Guarujá, que era deserta, ficamos uns quatro de pé  dentro da barraca segurando para o vento não levar todo mundo e desistimos no mesmo dia debaixo de chuva e ainda por cima a gente viajava de ônibus carregando as tralhas.

Da política nunca fui muito, me lembro que na assembléia da Poli um cara falou que a gente ia fazer passeata e greve até a vitória final e um reaça perguntou que vitória final era aquela e num aparte bradei que a vitória final era a queda da ditadura e eu achei que deu o maior IBOPE. Nunca mais abri a boca porque eu vi uns caras que eram bons demais no gogó, daí pra frente  eu preferi só escutar. No Crusp havia dois Fernando Leite, um era  Ribeiro o outro não lembro mais,  um da Poli e outro creio que da Filosofia, eram oradores de primeira . Eu fiquei na minha . Até tentei aprender Kung Fu para enfrentar o DOPS nas passeatas mas depois que o Bicho Elétrico me falou que foi a maior roubada porque não adiantou nada, na passeata ele viu que Kung Fu não derrubava a ditadura, apanhou e desistiu. Eu, que não tinha ido prá  passeata, aproveitei e desisti  do Kung Fu também.

No final de 1964  e no inicio de 1965 eu o Tovinho e o Carlos Ernesto, assumimos o Barcrusp para tirá-lo do buraco e até tivemos êxito  mas acabei levando três dependências para o segundo ano e perdi a condição de escolher Naval mas isso já não importava muito a essas alturas eu já tinha arma de caça submarina e até já havia covardemente matado uns peixinhos , os pobres carás da raia olímpica e já ensaiavamos acampamentos mais distantes para Ilha Bela e Angra com uma outra turma de amigos, o Roger, a Maira que casou com o Roger, o Paladino, o Alfredão, o Superboy , o Bicho Elétrico e muitos outros.

No final do terceiro ano eu acabei carregando dependência de Mec Flu dois anos sucessivos e assim perdi o ano escolar. Foi o ano mais produtivo da minha vida porque eu resolvi construir um barco. Todo dia eu ia para a marcenaria da Cidade Universitária e lá eu ia serrando e preparando as cavernas para fazer um lancha. As caverna ficaram prontas e eu levei-as para o quarto. As vezes surgiam curiosos e pediam Chico monta o barco aí pra gente ver, eu montava mas explicava que a proa ficava pra fora da janela porque o barco não cabia no quarto. Eu morava no terceiro andar do bloco C mas já não lembro se era 305 ou 306, com o Osvaldo Marangoni e o Ronan Ayer . Eles eram muito pacientes  e nunca reclamaram . Bem verdade que o Marangoni  tinha mania de abater o esquadrão de pernilongos do Pinheiros, com aquelas espirais verdes com cheiro de bosta e eu nunca reclamei. O Ronan também ficava lendo de luz acesa até tarde. Era um leitor obsessivo. A gente convivia numa boa. Acho que esse foi um grande aprendizado. Convivência.

Nas noites que antecediam as provas , o estresse era grande. A turma esfriava os ânimos despejando baldes de água nos vizinhos que ousassem botar a cabeça para fora da janela. E tinha o Laizio que dava o grito de Tarzan e a Jane respondia do outro prédio assim aliviados voltávamos para nossas apostilas.

Os fusíveis, aqueles em forma de pêra, ficavam no inicio dos corredores de cada prédio. No inverno quando ao passar ao longo do corredor alguém ouvia o barulho do chuveiro, era comum o cara desligar o fusível para esfriar a água da vitima. Então a gente tinha que sair correndo para religar o chuveiro, as vezes todo ensaboado. Foi assim que uma comissão de visitantes coordenada pelo ISSU (Reitoria) me flagrou, eles descendo do elevador e eu pelado tentando ligar o fusível. Voltei correndo para o quarto mas não consegui impedir que eles tivessem uma visão paradisíaca do Crusp.

Eram tempos de guerra e terror. Algumas semanas depois  divulgaram a lista dos 17 mais indesejáveis do Crusp. A maior parte era da POLOP e do PARTIDO . Eu estava na lista e fui expulso mas jamais soube se foi por causa dos esqueletos do barco ou do incidente do fusível. Também não me lembro se eram mesmo 17.

Já não consigo precisar quanto tempo se passou para que a turma do PC ateasse fogo nos arquivos do ISSU mas foi assim que os nomes se perderam e daí em diante começou a bangunça. O Tovinho meu amigão de Itapetininga morava no 506-c com o Adolfo Pimentel,  casou-se e deixou a vaga. Então eu voltei a morar no Crusp até a invasão final, sob “pseudônimo”. Foi nessa época que surgiram uns tipos estranhos de outros paises latinos e foi quando saiu até briga de faca  e sumiu o meu casaco de camurça meu maior patrimônio na época. Até então eu nunca me preocupara em trancar a porta. O casaco sumiu na calada da noite. Os bons tempos estavam se exaurindo mas eu custei um pouco a perceber isso.

Em 1968 eu andava tomado pela idéia de fazer a expedição Juruena –Tapajos para repetir o feito narrado por Hercules Florence em seu livro. A gente fazia pedágio para arrumar dinheiro e pedia ajuda da Michelangelo , Lemac, e outros. A expedição não saiu do papel mas o curioso é que surgiram uns caras interessados em participar da expedição, o que eu estranhei porque eram ideológicos demais. Foi somente quando surgiu a guerrilha do Araguaia que eu finalmente entendi a razão do estranho interesse deles na minha campanha fluvial.  Nascia a guerrilha.

Nos estertores do Crusp a  bagunça era muita. Então o Osório, o Hamilton, o Guru, o Zé Roberto, o Celentano e eu fundamos o PADUV que significava Partido Avacalha Duma Vez, mas o pessoal mais radical traduziu como Partido Antidemocrático Unidos Pela Violência . Eu, hein !

Quando o CRUSP foi finalmente invadido eu estava no final do 4º. ano fazendo levantamento topográfico das pedreiras de calcário de Piracicaba. Quando eu e Hamilton Barbosa regressamos, descendo do carro com o teodolito fomos imediatamente levados ao capitão. Que aparelho é esse , eu explico é um teodolito, etc. Eu tinha um velho radio da minha avó, pedi para retirá-lo mas ele havia sido “apreendido”. Com medo de ser preso porque além de eu ser clandestino, no meu quarto havia umas três ou quatro bombas Molotov, que a turminha brava distribuíra para o dia do “grande confronto”,  recolhi minhas roupas e nunca mais voltei para pegar o rádio.

Eu ainda passei muitas vezes em frente ao Crusp levando minhas filhas para a Universidade. Elas estudaram lá e eu me orgulho disso.

Pai, foram tão bons assim os tempos do Crusp?

Filha, você não faz a menor idéia…

Com alguns contemporâneos do Crusp convivo até hoje. Muitos se foram para sempre na dura luta contra a ditadura ou ao longo do caminho. E há amigos que nunca mais vi. Agora vou vê-los. Tempo de matar a saudade.

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Uma resposta to “CRUSP 68….. por Francisco Weiss”

  1. Sonia Castanheira Says:

    Que linda descrição Chico. Quanta coisa que a gente esquece e rememora graças a essa memória coletiva.
    Adorei te ler. Bem espontâneo, autêntico e refletindo os tempos vividos tais como foram.
    Abraços
    Soninha

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