CRUSP: MUITO MAIS QUE UM ALOJAMENTO DE ESTUDANTES… por Dulce Satiko Onaga

Crusp: muito mais que um alojamento de estudantes

Nos primeiros anos da década de 60 fazia o curso científico (hoje Ensino Médio) no Instituto de Educação Canadá, em Santos. Nessa ocasião, um grupo de professores preocupados com a nossa escolha vocacional, promoveu uma excursão para conhecer a Faculdade de Medicina e a Cidade Universitária, que estava sendo construída. Fiquei encantada com a grandiosidade do campus da USP. De imediato surgiu a vontade de estudar naquele local e isso foi uma das motivações para me empenhar e conseguir ingressar no curso de Matemática.

Em 1963, por ocasião dos Jogos Panamericanos, em São Paulo foram construídos alguns prédios no Conjunto Residencial da USP (CRUSP), para alojar atletas participantes do evento. Após esses jogos um grupo de universitários invadiu e passou a residir nesses prédios. Quando entrei na faculdade soube que esses primeiros moradores, chamados “pioneiros”, tentavam junto à reitoria que esse espaço fosse aberto aos “uspianos” que vinham de outras cidades e tinham dificuldades de moradia. Graças a essa inicativa, pude ir morar no Crusp, após uma seleção.

A possibilidade de estudar na Cidade Universitária e também morar ali, parecia um sonho que havia se concretizado.

No Crusp, tive uma dimensão do que é uma universidade: universal + diversidade.

Tinha gente oriunda de diferentes regiões do Brasil. E no contato cotidiano com essas pessoas pude conhecer os hábitos, as crenças, as artes que tornam a cultura brasileira um mosaico multicolorido.

Também, me chamava atenção os sul-americanos: venezuelanos, chilenos, paraguaios, peruanos de semblantes nostágicos, espalhando o som doído das “quenas” no silêncio da noite. Através de seus relatos viajava pelos países do nosso continente. Isso contagiava tanto, que sempre havia um grupo planejando alguma aventura pela América do Sul. Participei de uma que foi fantática: viajar no “trem da morte” pela ferrovia que ligava Campo Grande a Santa Cruz de la Sierra ou Cochabamba. E daí, ir de ônibus a Cuzco e Machu Pichu e ainda passar por Arequipa e Lima. Nesta cidade tive o primeiro grande “choque” cultural ao visitar o bairro de Miraflores, tantas vezes descrito nos romances de Vargas Lhosa: um reduto europeu que nada tinha em comum com o resto da cidade.

Por influência deles, comecei a ler os autores latinos americanos: Eduardo Galeano, Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marques e outros mais.

Nas conversas com colegas de outros cursos fui conhecendo os grandes autores contemporâneos. Também, havia nos murais informações sobre teatro, cinema, danças e exposíções. Ficava em dia com o que se passava nas casas de espetáculos da moda: Teatro de Arena, Cine Bijou e Belas Artes, entre outros. De vez em quando assistía no Centro de vivência do Crusp apresentações de grupos teatrais, de cantores, palestras de artistas plásticos como por exemplo, Flávio de Carvalho. Mas o que empolgava eram os festivais de música brasileira, que estavam no auge.

Acredito que este convívio tenha impulsionado o gosto pela literatura e contribuído na minha formação geral, pois no curso de Matemática estudava apenas as disciplinas específicas da área: Cálculo, Geometria, Álgebra, Física e às voltadas à Educação: Psicologia, Filosofia e Sociologia.

No Crusp, também foi onde iniciei a minha formação política: assistindo debates, palestras e assembléias; lendo os panfletos colocados por baixo das portas dos apartamentos e participando de reuniões e cursos promovidos por alguns grupos políticos. No início, quando assistia as assembléias não identificava os discursos ideológicos dos oradores. Com o tempo, isso já era possível ao ouvir o primeiro “chavão” , ”as questões de ordem” para esvasiar as assembléias e os “aconchavos” para manipular as votações.

A minha participação consistia em se juntar aos grupos que eram formados para ir às passeatas contra a ditadura militar que ocorriam no centro da cidade: Praça da República, Avenida São João, Praça João Mendes, Praça da Sé e terminavam em pancadarias na Liberdade.

Um momento de confraternização era quando, após as manifestações, os residentes do Crusp, se encontravam no Anhangabaú, no ponto final da única linha de ônibus que ligava o centro à Cidade Universitária. Cada um que chegava era ovacionado: alguns machucados, outros com as vestimentas rasgadas. Numa dessas perdi um pé de sapato e para voltar consegui um outro pé que era o dobro do meu. Mas nada nos abatia, eufóricos sentíamos orgulho por conseguir manifestar a nossa indignação contra a política vigente e conclamar a população a repudiá-la.

O movimento estudantil começava a ganhar força e apoio da sociedade. Como decorrência disso, as ameaças de fechamento do Crusp passaram a ser frequentes. Na ótica do governo o alojamento havia se transformado em um reduto de subversivos.

Nos organizamos contra o fechamento do Crusp: vigílias noturnas, táticas de resistência. Até que, em um dia que não me lembro, durante a madrugada, sob uma forte neblina, canhões adentraram a Cidade Universitária para nos desalojar. O Crusp fora invadido por policiais, que com megafones ordenavam a nossa retirada. Muita tensão, medo e soliedariedade. Ficamos confinados no pátio durante o dia todo. A noite nos levaram, de ônibus, para o presídio Tiradentes.

Após esse episódio, como estava cursando o último ano, aos poucos fui me desligando do Crusp, que com certeza foi um centro de formação educacional e cultural em todas as dimensões: social, filosófica, psicolólica, ideológica e que muito contribuiu na minha atuação profissional na área da Educação, como professora e escritora de livros didáticos.

S. paulo, novembro de 2008

Dulce Satiko Onaga

Residente do Crusp de 1965 a 1968, na época frequentava o Curso de Matemática da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Fui professora de Matemática do Ensino Fundamental e Médio e de Prática de Ensino no Ensino Superior. Atuei na rede pública e particular.

Participei na elaboração de materiais didáticos da Secretaria de Educação do Estado de S. Paulo e do Ministério da Educação.

Atualmente sou autora de livros didáticos de Matemática da Editora Saraiva e Global.

5 Respostas to “CRUSP: MUITO MAIS QUE UM ALOJAMENTO DE ESTUDANTES… por Dulce Satiko Onaga”

  1. remo Says:

    dulce, que síntese perfeita, parabens
    seu colega de matemática
    remo

  2. Verenice Leite Ribeiro Says:

    Minha querida amiga Dulce

    Que saudades !

    Nosso início de carreira foi bem dificil em Avaré não foi?

    Lembra-se que nossos alunos queriam ter aula de análise matemática e não sabiam regra de tres?

    Como trabalhamos !

    Tenho muitas saudades de você e do nosso companheirismo.

    Adorei seu texto, revivi muitas horas de nosso grupo: Benê, Alzira, Bárbara.

    Muuitos Beijos.
    Verenice.

    PS-Acabo de de lançar uma coleção de paradidáticos pela Saraiva. Primeira série do ensino fundamental.

  3. NANCY CARDOSO SILVA Says:

    Professora Dulce

    Talvez v nem lembre mais de mim. Em 82 v me ajudou a passar em Matemática no Rui Bloem, no 1º colegial, turno da tarde. Eu era aluna nota dez mas a Física e a Matemática iam me derrubar. Ajudada pela minha pele negra a evasão escolar seria ótima para destruir as minhas possibilidades de ser feliz.
    Não aconteceu. Graças ao seu ato de humanidade consegui terminar o segundo grau, fiz faculdade, passei num concurso e hoje em dia tenho emprego, remuneração e dignidade, coisas que eu jamais conseguiria sem o seu voto no Conselho de Classse. Foi uma grande sorte na minha vida ter ido parar no Rui Bloem, tanto por v como pela equipe q vcs conseguiram reunir.
    Sempre quis te agradecer, demorou um pouco mas a hora chegou.

    Sucesso, ainda mais

  4. suria abucarma Says:

    Dulce você sintetizou tudo o que o CRUSP nos ensinou e nos fez atuar. Eu cursava geografia. morava no Bloco D apto 111 e era representante do prédio. Nossas assembléias de bloco ( só para suas residentes) e as do centro de convivências me introduziram nas correntes políticas e nas estratégias montadas em cada uma. A política entrou no sangue para ficar. Que saudades! Moro em Penápolis, e no momento atual sou secretária municipal de planejamento.Trabalhei 29 anos (contando as greves do Maluf/Montoro/ Quércia e demais neotucanos) como professora da rede estadual. Fiz parte do movimento sindical dos professores junto a APEOESP (diretoria 87:91)

  5. Deucelia Says:

    Oi, você foi uma professora muito marcante na minha vida no Gonçalves Dias. Também com uma história destas!
    Um grande abraço

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