CRUSP : UMA EXPERIÊNCIA QUE DEU CERTO – por Walter Silva (Teco)

CONJUNTO RESIDENCIAL DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – CRUSP :

UMA EXPERIÊNCIA QUE DEU CERTO – (Aptº 608 E)

Ocupamos o aptº 608 do Bloco E no ano de 1964. Lá estavam: Hermenegildo E.M. Basílio (Poli – Eletrotécnica) – Agenor Fernandes ( Poli – Naval) e Walter da Silva (História) . No ano de 1967 o Hermenegildo se formou e em seu lugar entrou o João Antonio Armelin – Totó (Poli – Mecânica:Produção).

No aptº 609 estavam o Mineiro (Poli – Civil) Parágua (Poli – Civil) – Zé da Palha (Pedagogia) . No aptº 610 estavam: Marquinhos (Poli – Eletrônica: em 1968 formou-se em primeiro lugar na Faculdade) – Mário Pareja – boliviano (Medicina) – Malaman (Poli – Naval).

No aptº 610 estavam: Peter (Poli-Mecânica) – Walter Trinca (Psicologia) – Mário Santista (Poli – Mecânica).

No aptº 607 estavam: Lourival Dalio (Poli – Eletrotécnica) – Roberto Turtelli (Poli – mecânica) – José Roberto Leite (Física). Por coincidência, os três colegas já faleceram. O José Roberto Leite que foi Diretor do Instituto da Física faleceu recentemente ( há dois meses).

A referência a esses apartamentos deve-se ao fato do grupo ser muito unido e a seleção de futebol de salão do Crusp estar ali: Pareja – Parágua – Marquinhos e Teco (Walter): apenas o goleiro (Alfredo – Itapetininga) era de outro Bloco.

Antes de iniciar o meu depoimento propriamente dito, gostaria de lembrar o sucesso de nossos colegas. Cheguei até a sugerir que se tivesse um cadastro com o destino de cada um, para mostrar o quanto a geração de cruspianos marcou pontos na sociedade de um modo geral. O fato da maioria ser do interior e de outros Estados e mesmo países, não significava que todos vinham de uma baixa condição social. Muitos não tinham aonde cair morto. Mas vale lembrar que lá residiu o sobrinho do senador Auro de Moura Andrade, a sobrinha dos donos da Hering (Mike), o sobrinho do dono da fábrica de fogos Caramuru (que sempre nos propiciou demonstrações de fogos de artifício), filhos de hoteleiros e outros. Evidentemente, essa condição não significava nada, pois ali todos eram iguais e tinham os mesmos direitos e deveres. Vale lembrar que um dos colegas (que sempre andava de chinelo de dedo), que tinha dificuldades financeiras, casou-se com uma colega (da minha cidade), Maria Terezinha Martins (História) e ao sair do CRUSP montou um empório com o irmão e hoje são donos da maior rede de supermercados da Zona Norte de São Paulo = Bergamini. Um outro, que também sempre andava de chinelo de dedo, o Noronha, cursava Eletrônica na Poli e era uma cabeça, casou-se com a filha de um Diretor do Banco Itaú e chegou a ser Diretor no Banco, no setor de Seguros.

Dos colegas do 6º andar E, o Lourival (falecido) foi gerente regional da CESP, o Turtelli (suicidou-se cedo: era uma cabeça), o José Roberto Leite era Professor Titular da Física e foi Diretor da Faculdade. Fazendo um parêntese, lá na Física tornaram-se professores o Molina, o Farias, o Gil (que também foi Diretor da Faculdade e Prefeito da Cidade Universitária). O Hermenegildo foi ser engenheiro na Pirelli, o Armelin (Totó) começou na IBM na área de informática e montou uma empresa para ser concorrente da IBM (tornou-se representante de uma multinacional de computadores), o Fernandes também foi para a IBM, aposentou-se e ingressou como fiscal tributário do Estado (onde encontrou o Ferez, um outro colega do 5º andar do E). Eu, Teço, concluí o curso de pós-graduação em 1969, para ser professor universitário e diretor de colégio particular – hoje na assessoria da liderança do PT na Assembléia Legislativa. O Mineiro foi trabalhar na Camargo Correia, casou-se com a Formiga (Pedagogia), também do CRUSP, foi assessora da Secretaria da Educação do Estado e abriu uma Faculdade particular em Cotia. O Parágua casou-se com a Sônia (da História mas não cruspiana), foi ser engenheiro em Itaipu e se tornou empresário em Cidade Del Leste (a última notícia era de que saiu candidato a Deputado no Paraguai e o seu irmão candidato a governador e uma província. O Marquinhos fez PHD nos Estados Unidos e virou funcionário credenciado da Themag. O Pareja especializou-se em Otorrinolaringologia e foi desempenhar a profissão em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, onde sofreu um grave acidente de moto (veio se tratar no Hospital das Clínicas, onde se recuperou e voltou a fazer cirurgias – chegou a se casar com a Carmencita, também do Crusp, especialista em anestesia, separando-se em seguida. O Peter casou-se com a Teresa (cruspiana) e abriu uma indústria de caldeira em Guarulhos. O Walter Trinca tornou-se Professor Titular na Faculdade de Psicologia. Continuando, a lembrança de outros colegas: a Sonia Penin (pedagoga) foi coordenadora da Cogsp (Secretaria da Educação) , vice-presidente do Conselho Estadual da Educação e hoje é Pró-Reitora de Graduação da USP. O seu marido, cruspiano,o Espanhol – Silvério foi presidente do Instituto de Engenharia de São Paulo. O Hugo Armelin, irmão do Totó, foi Pró-Reitor de Pós-Graduação da USP. O Adilson Avansi, foi Diretor do Departamento de Geografia e por duas vezes foi Pró-Reitor da Cultura na USP. A Hilda foi professora do Instituto de Oceanografia. A Creta (pedagoga) foi professora de várias faculdades particulares. Um outro colega, Flair, talvez era o único que fazia a Faculdade de São Francisco e tinha um fusquinha verde, tornou-se juiz de direito em Campinas. O Camões que foi andar de bicicleta no prédio da História, quando ainda estava em construção, com a rampa ainda por terminar, acabou caindo de uma altura considerável e se arrebentou todo. Após o fechamento do Crusp, foi ser assessor do Allende no Chile, quando teve que fugir novamente. Hoje está na fundação do Henfil, onde se encontra também o Pacote. O Martins, que se formou na Física e estava por se formar na Poli, largou tudo e foi fazer Medicina em Marília. Voltou como cardiologista no Hospital da Beneficência Portuguesa, após o que foi para Jaú, onde abriu um dos mais avançado instituto de radiologia. O Delana, formado na Física, casou-se com a Sílvia da História e foi o Coordenador de todo o sistema de informática da CESP. Lá também estava o Celeri (Monte Aprazível), formado na Poli. Um outro colega nosso, cujo nome está fugindo, trabalhava na CESP e foi trabalhar na ONU, como consultor. O Haruo estava na assessoria da Diretoria da Companhia Paulista de Força e Luz. O Hélcio da História, fez mestrado com o Frederic Mauro na França, voltou como professor do Departamento de História, largou tudo e virou empresário da VídeoNorte, a maior locadora da região Norte de São Paulo. O Fagali, da Poli – Eletrônica, que foi Diretor do DCE, chegou a ser Secretário dos Negócios Metropolitanos do Governo do Estado. A Maria Eneida Facchina, da História, trabalhou na CENP e coordenou o programa de supletivo a distância. O Clóvis Carvalho, da Poli – Civil, foi Secretário da Casa Civil do Presidente Fernando Henrique Cardoso. O Álvaro (geologia) e o Oswaldo (Bicho Elétrico – Poli) ficaram no IPT. O Fernando Perez tornou-se conhecido como Diretor Científico da Fapesp, que desenvolveu os programas de genoma. O Sílvio Preto, da Física, tornou-se Professor Titular da Universidade Federal de São Carlos. O Celso foi funcionário da Cetesb e depois foi ser profissional na Venezuela. O Lauriberto e o Jeová, que foram para Cuba, na troca com o embaixador americano, ao voltarem para o Brasil, foram mortos (o primeiro metralhado na zona leste e o segundo em Goiás). Outros deveriam complementar essas informações. Agora vamos iniciar a nossa história no CRUSP .

Há uns vinte anos atrás encontrei o Dr. Irineu Strenger, no Hospital do Servidor Público do Estado. Para quem não se lembra, o Dr. Irineu foi Professor Titular de Direito Internacional no Largo São Francisco e, durante muito tempo, Diretor da COSEAS (antigo ISSU), que além da assistência médica e social, administrava o CRUSP. Naquela oportunidade, o Dr. Strenger me confidenciou que o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo havia sido a melhor coisa que a Universidade criara nos últimos anos. A experiência de integração entre os alunos, a vivência universitária e o dinamismo dos alunos na Cidade Universitária, mostraram uma experiência fantástica, infelizmente,abortada pelo AI-5. Naquele momento, tive a certeza de que sua opinião não era exclusiva, mas refletia o que pensava o Conselho Universitário. Outrossim, aquela colocação lavava minha alma, pois era o reconhecimento de uma situação em que moramos, criamos, mobilizamos, construímos, convivemos e justificamos a nossa condição de cruspianos.

Pois bem, em 1964 cheguei ao Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, não como pioneiro, mas quase. Caipira do interior, como a maioria dos que lá aportava, oriundo de uma pequenina cidade – Quatá, tive o privilégio de ali encontrar um colega, o Mané – Quatá que fazia engenharia na Poli (e era pioneiro). Logo pensei, não vou estar sozinho; mal sabia que em pouco tempo estaria integrado, vivendo na condição de irmão de uma grande maioria do CRUSP.

A Cidade Universitária era a própria cidade do interior. Isolada, deserta, arborizada, com uma lagoa em frente aos alojamentos (muitas vezes confundida com o Rio Pinheiros). O Conjunto Residencial nascera da ocupação pelos estudantes dos alojamentos construídos para os atletas dos Jogos Pan-Americanos em 1963. Portanto, a minha liberdade estava assegurada sob o prisma de uma cidade do interior, bastava um período de adaptação para aprender a viver em grupo e em apartamento. Quando me refiro à liberdade ela tem conotação de espaço, pois em termos de expressão estávamos iniciando um dos piores períodos da História, com a ditadura militar.

Na minha bagagem trouxe dois componentes preciosos que fariam a minha história: uma bola de futebol de campo e uma máquina de escrever. Com a bola eu não ia ser o dono do time, como ocorre com as crianças, mas tinha o reconhecimento inicial dos colegas para os primeiros jogos, uma vez que ainda não tínhamos bolas disponíveis. O fato de jogar futebol de salão e futebol de campo, fazendo parte das duas seleções do CRUSP, foi o passaporte para uma longa lista de amizades e afinidades. Nessa seqüência de esportista, acabei sendo Diretor de Esporte da AURK (Associação Universitária Rafael Kauan). E como tal, com freqüência, recorria aos serviços do Fundo de Construção da Cidade Universitária, conseguindo ônibus para excursões para Santos, Casa Branca, Lins, Piracicaba e outros lugares. Também consegui passes de trem, levando uma seleção de colegas latino-americanos para jogar futebol de salão no interior do Estado. Conseguimos construir duas quadras de basquete, vôlei e futebol de salão e uma pista de atletismo em volta do campo de futebol. E por último, conseguimos aquela piscina redonda com vestiário e tudo, mais com aparência de tanque. Além dos campeonatos internos inter-andares e inter –prédios, tínhamos o encontro das Casas de Estudante, que envolvia cidades do interior, como Piracicaba e São Carlos. Na realidade, essa competição foi o embrião da Olimpíada da USP.

Já estava me esquecendo da máquina de escrever, que me acompanhara na chegada ao CRUSP. Pois bem, com essa máquina levei adiante a idéia de realizar a corrida pedestre ao redor da Cidade Universitária. Inicialmente demos o nome de São Silvestre Universitária, que contou com o apoio da Gazeta Esportiva. Quando nos dirigimos ao jornal, pela primeira vez, fomos recebidos pelo seu Diretor Olímpio da Silva e Sá, que mandou fazer uma reportagem, em que estudantes do CRUSP iam organizar a I São Silvestre Universitária. Naquela oportunidade, o Diretor mandou eu procurar no dia seguinte, o repórter responsável pelo esporte universitário, José Antoníade Inglez. Qual não foi a minha surpresa, que ao ter contato com o Sr. Inglez, recebi a informação de que universitário não conseguia correr 7.000 metros e a competição não poderia ser realizada sem a autorização da FUPE (Federação Universitária Paulista de Esporte). Foi um ducha de água fria. No entanto, como já havíamos conseguido patrocínio de uma papelaria para a confecção de cartazes, não desisti e, simplesmente, datilografei um ofício dirigido à FUPE, informando que iríamos realizar a corrida, coloquei num envelope, levei até o DEFE na Rua Germane Buchard, e joguei debaixo da porta da FUPE. Numa noite de outubro (não me lembro da data, uma vez que doei o meu álbum com recortes de jornal sobre a corrida, para o CEPEUSP), lá estavam onze universitários para participar da corrida, inclusive, um africano que correu descalço. Lá estava o Prof. Jarbas Gonçalves, técnico de atletismo do Clube Pinheiros e Professor da Escola de Educação Física, que passou a participar da organização de todas as corridas, inclusive, inovando o transporte da tocha olímpica do Museu do Ipiranga até a Cidade Universitária, antes de cada corrida. Lá apareceu também para fazer a reportagem, o Sr. Antoníade Inglez, que publicou uma página inteira na Gazeta Esportiva, sobre a I São Silvestre Universitária e, a partir dali, tornou-se o maior defensor da corrida. Como havia um colega no CRUSP que era sobrinho do dono da fábrica de fogos Caramuru, sempre, após a corrida, tínhamos uma demonstração de fogos de artifício (alguns rojões que sobravam e ficavam guardados no meu apartamento, ainda me criou dificuldades por ocasião da retirada de nossa mudança do apartamento, com a nossa prisão e fechamento do CRUSP. Isso porque, o oficial que nos acompanhou acabou ligando os rojões à operações militares).

Na 4ª edição da corrida, mudamos o nome de São Silvestre Universitária para “Volta da Cidade Universitária”, contando com o apoio da Secretaria de Turismo e Esporte, que propiciou os troféus e um belíssimo cartaz em que apareciam o Mário Nogueira, o Luiz Iha e o Paulo Prandi. Nessas alturas, a corrida já fazia parte do calendário esportivo da FUPE e da CBDU (Confederação Universitária de Desporto Universitário. Convém lembrar, que após cada corrida, realizávamos o Baile de Integração no centro de vivência do CRUSP. Com o fechamento do CRUSP em 1968, apesar de toda frustração e revolta, envolvido em inquérito policial-militar, ainda voltei ao alojamento, para organizar a Volta da Cidade Universitária, em 1969 e 1970, para impedir que a prova pedestre fosse interrompida. Conclusão, o CEPEUSP assumiu a sua organização e a nossa corrida, iniciada no CRUSP virou tradição na Universidade de São Paulo. Um outro detalhe que poucos sabem: eu tinha o costume de oficiar as autoridades para estarem presentes na solenidade da corrida. Como eu era atleta, sabia que a presença de público e de autoridades interferia no nosso rendimento durante as competições. Pois bem, em 1968, como de rotina, mandei um ofício convite ao Reitor da USP (datilografado na minha companheira máquina de escrever), convidando-o para estar presente no ato da corrida. Segundo comentários do Chefe de Gabinete do Reitor, ao despachar com o Magnífico, apresentou o nosso ofício e, ao mesmo tempo, puxando-o, justificando que se tratava de festa dos estudantes. Fazia um mês que o Prof. Miguel Reale assumira a Reitoria e, naquele momento, determinou ao Chefe de Gabinete que agendasse a sua presença na V Volta da Cidade Universitária. Qual não foi a nossa surpresa com a chegada do Reitor antes do início da corrida (posteriormente, ficamos sabendo que a invasão do CRUSP deveria ter ocorrido na hora da corrida, que só não aconteceu devido a presença do Reitor naquela oportunidade). O repórter da Gazeta Esportiva (Sr. Inglez) nos procurou e sugeriu para que o Magnífico Reitor desse o tiro de partida, no que foi atendido. Terminada a corrida, o Prof. Reale no palanque, pediu para fazer uso da palavra. No seu discurso, afirmou que naquele momento estava tomando conhecimento de como os estudantes não tinham as mínimas condições para praticar Esporte e, prometeu, que até término do seu mandato a Cidade Universitária teria uma praça de esporte. Conclusão, dois meses depois o Reitor emprestou 5 milhões da Prefeitura e 5 milhões do Governo do Estado e iniciou a construção do CEPEUSP, que mais cedo mais tarde iria ocorrer, mas que aconteceu naquele momento, graças aos estudantes do CRUSP. A nossa lagoa virou raia olímpica e a área entre o CRUSP e o CREPE VIROU O Centro Esportivo. Esse fato está registrado no livro que o Prof. Reale mandou editar sobre a sua administração à frente da Reitoria da USP. Antecedendo, ainda, a construção do CEPEUSP, o Prof. Eurípedes Simões de Paula me nomeou como Membro da Comissão de Lazer e Recreação da USP que analisou a situação do esporte na universidade e projetou a construção do centro esportivo. Em 1975 o Prefeito da Cidade Universitária, José Antonio Antonini me convidou para assessorar o CEPEUSP, mas o meu nome foi vetado, pois constava no Listão Negro (de subversivos) da Reitoria, onde um coronel fazia a triagem.

Uma outra colaboração da minha máquina de escrever, foi que em 1965, como Diretor do Departamento de Esporte, enviei um ofício ao Reitor solicitando a integração da Escola de Educação Física na USP, pois acreditava, que a presença dos alunos de Educação Física contribuiria para a organização e a dinamização do Esporte na Cidade Universitária. Posteriormente, ficamos sabemos que havia um pedido de intregração da Escola de Educação Física na USP (ainda era um Instituto de Ensino Superior Isolado) , em 1963 através do Deputado Solon Borges e que havia sido arquivado na Assembléia Legislativa. Aquele nosso pedido em 1965, provavelmente, fez com que o Conselho Universitário movido pela intervenção do Magnífico Reitor, retomasse o processo de integração da Escola de Educação Física. Num primeiro momento, a própria Escola de Educação Física dificultou o processo, pois, a maioria dos seus professores não tinha Diploma de Pós-Graduação e temiam perder o cargo, com a incorporação da Escola na USP, onde os catedráticos eram vitalícios. A negociação continuou se desenvolvendo e pelos idos de 1969 a integração ocorrendo, com a Escola de Educação Física fazendo parte da USP, com méritos para o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo desconhecido da maioria das pessoas .

Entre as passagens que merecem ser lembradas, em 1964 assistimos sentados na grama, em círculo, entre o prédio C e o D, uma apresentação do Circo de Moscou, com os ursos polares ali presentes. Em 1967, quando ocorreu a greve (após uma diarréia geral e o aumento do preço da refeição) contra o restaurante, e refeição era feita na lanchonete, complementada pela com a comida que os estudantes de geologia mandavam da alameda Glete, o então Coordenador do ISSU, Prof. Paula Souza mandou retirar o fogão da lanchonete. O próprio Paula Souza esteve presente na retirada o fogão, que ocorreu por volta das 5:00 horas da manhã, num dia de junho, com garoa e muito frio. Todos os estudantes desceram dos apartamentos e, cantando o hino nacional, acompanharam a retirada do fogão , guardado por um contingente de policiais e um Brucutu. Estava quase tudo terminado, quando o Brucutu resolveu disparar jatos de água contra nós, entrando no jardim entre os blocos C e D, onde ficou encalhado. Passou-se a jogar pedras no Brucutu e , segundo alguns, até tiros foram dados. Após uma hora do episódio, quando todos já tinham ido dormir, chegou uma tropa de choque no CRUSP para retirar o Brucutu, mas não se contentando com esse procedimentos, os policiais entraram nos blocos C , E e D, arrombando as portas dos apartamentos e descendo o cacetete em todos os cruspianos que encontraram em suas respectivas camas.

Ainda, em 1967 (se não me engano), fomos chamados para reforçar a guerra da Maria Antonia contra o Mackenzie (CCC) e para lá se dirigiram inúmeros cruspianos. Convém lembrar, que muitas vezes, elementos do CCC paravam ao lado da marginal Pinheiros e disparavam tiros no alojamento, perfurando a bala alguns apartamentos do Bloco das mulheres (G).

Vária vezes distribuímos panfletos na vizinhança da Cidade Universitária, para que fossem passear na USP, numa tentativa de levar o progresso até lá. Quantas vezes não foi encaminhado a solicitação para que a CMTC entrasse na Cidade Universitária, já que ninguém agüentava mais a situação dos ônibus da empresa Vani. Parecia ônibus do oeste americanos e, às vezes, dava a impressão que ia se desintegrar. Após o período de esgotamento de paciência, os estudantes se programaram e tombaram um ônibus na subida da Biologia, tocando fogo. Na semana seguinte, a CMTC entrou na Cidade Universitária.

Quando da visita do Príncipe Akirito e da Princesa Mitiko no prédio da História, fui convidado para participar de um entrevista com os monarcas nipônicos, representando o Esporte, o que foi motivo de muito orgulho.

Quando divulgávamos a corrida, tínhamos espaço para a publicidade nos canais de televisão, uma vez que o esporte universitário era muito prestigiado. Numa das entrevistas no Canal 4 de Rede Tupi de Televisão, participei de um mesa redonda ao lado do Pelé e do Armando Marques (que era o árbitro do momento).

Quando trazíamos a tocha olímpica do Monumento do Ipiranga para a Cidade Universitária (transportada por cem atletas, distribuídos em dois ônibus), vínhamos soltando rojões pela Avenida Ipiranga e Rua da Consolação, atraindo a atenção do público, que em seus carros acompanhavam o espetáculo até a Cidade Universitária, avolumando a presença de torcida na Volta da Cidade Universitária.

Não podemos esquecer a presença do Tarzan, que fazia o curso de Física e de madrugada, dava o seu estridente grito da selva.

O passeio e o footing dos cruspianos se resumia nas dependências do Instituto Butantã.

O triste mesmo foi o fechamento do CRUSP e a ocupação da exército. Naquele momento eu estava terminando o 1º ano de Pós-Graduação , com orientação da Professora Emília Viotti (que também foi cassada e tive que concluir o 2º ano com o Prof. França).

Posteriormente, ao dar aulas de História em colégio estadual, acabei conhecendo um professor de Educação Moral e Cívica (um tal de Capitão Molinari, do CPOR), cujo pai foi o comandante da ocupação do CRUSP. Só que naquele momento, ainda vivíamos a força da ditadura militar.

Quando vou a Cidade Universitária, à minha cabeça saltam as lembranças de quando atravessava todo o Butantã à pé durante a noite, voltando de Osasco, onde ia dar aulas, fugindo dos cachorros, arregaçando as calças e amassando barro para chegar até o alojamento. Muitas vezes, volto ao passado, revejo os amigos, fico feliz e triste ao mesmo tempo, pois tudo pertence ao passado. Mas, o que foi incorporado à minha formação e à minha cidadania, continua firme como uma rocha, levando adiante programas e projetos de Esporte e de Meio Ambiente, continuando a cruzada de um idealismo que se iniciou no CRUSP e deve me acompanhar até os últimos dias de minha permanência na terra. Não guardo muito o nome, mas a imagem de cada cruspiano com quem convivi, permanece latente na minha memória. Pena que nem todos dão o mesmo valor e nem todos assimilaram as experiências e a vivência que o CRUSP nos proporcionou.

Às vezes tenho até receio dos encontros que ocorrem, pois bate uma alegria imensa, ao mesmo tempo que a tristeza vem com a nova separação.

É bom sonhar, mas vivemos um sonho e fizemos parte de uma realidade, que influiu na transformação da USP e na construção da Cidade Universitária. Mas com certeza, um dia fomos irmãos sob um mesmo teto e isso estará marcado na vida de cada um, queiram ou não, como um patrimônio que a CRUSP nos legou.

Que o meu carinho e a amizade que sempre nos uniu, possam servir de exemplo para as novas gerações que poderão se espelhar na nossa , como guerreiros e conquistadores da paz que sempre fomos.

Walter da Silva (Teco)…

3 Respostas to “CRUSP : UMA EXPERIÊNCIA QUE DEU CERTO – por Walter Silva (Teco)”

  1. Sonia Castanheira Says:

    Walter;
    Fiquei emocionadíssima com seu depoimento. Grande Teco.
    Exemplo magnífico de ser humano, com essa narrativa, tão simples e ao mesmo tempo tão completa reflete bem o que representou para todos nós o CRUSP e também afasta a idéia tão generalizada de que seus habitantes eram simples agitadores, subversivos e que a moralidade e os valores não existiam nesse lugar em que demos exemplo de convivência comunitária.
    Quem esteve presente na Exposição, acho que organizada pelos Diários Associados, e teve a oportunidade de escutar os comentários das pessoas presentes ante tudo o que foi apresentado, como material de indivíduos altamente perigosos, pode perceber a opinião generalizada de que tipo de indivíduos éramos.
    Isso também é importante resgatar, pois podemos ver como a opinião pública é manipulada pela imprensa, pelo medo e pela tendência que os governantes impunham a todos.
    Poucos eram livres de agir e pensar naquela época e essa liberdade os cruspianos tiveram.
    Como ficou bem claro na maravilhosa descrição do Teco e de outros que o precederam no CRUSP morava uma juventude NORMAL, sadia, cheia de ideais e de objetivos, alguns dos quais se viram malogrados pela imensa perseguição que sofremos.
    Também me sinto reconfortada depois de lê-los
    Sonia Castanheira (Soninha)

  2. Diomar Says:

    Oi Teco
    Muito boa a sua lembrança do Crusp.
    Mas como voce é historiador, a visita do circo de moscou foi em 65. Me lembro dos ursos e da dificuldade que tinham de andar de bicicleta na grama. Foi entre o bloco D e o restaurante. Me lembro do jogo de volei e de futebol com os artistas. Devo ter jogado futebol pois um russo foi tomar banho no meu apartamento. Uma jornada magnifica em um belo dia de outono!
    Diomar

  3. Fernando Prota Says:

    Olá Teco,
    estou fazendo um trabalho sobre a história da organização do esporte na USP, como monografia de conclusão do curso de bacharelado de Esporte.
    Encontrei que a Diretoria de Esporte da AURK, do Crusp nesta época, foi muito importante para o desenvolvimento do esporte uspiano. Entre elas Volta da USP e CEPEUSP.
    Gostaria de saber mais sobre a prática esportiva neste período na USP.
    Com quem posso conseguir mais informações?
    Grato,
    Fernando Prota

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: