EXPERIÊNCIA DA UTOPIA por Wolfgang Leo Maar

Experiência da utopia

Wolfgang Leo Maar

– “Você é de direita ou de esquerda?”

No início de 1965 eu acabara de me inscrever para uma vaga no Conjunto Residencial da USP e alguns residentes me acompanhavam numa visita para apresentar o local. Para ser bem sincero, naquela época eu mal sabia diferenciar o conteúdo da pergunta; me identifiquei como “mais de centro”, o que parecia de qualquer modo mais seguro para garantir meu objetivo de moradia…

Ao ser retirado à força do mesmo Crusp quatro anos depois, em 17 de dezembro de 1968, eu já não era o mesmo. Passara por um processo de formação de cidadania, de valorização do espaço público e dos direitos universais. Adquirira clareza vivencial, prática, acerca dos termos daquela questão inicial que teimara em não me abandonar mais: balizar-me por aqueles dois posicionamentos políticos passou a ser fundamental e se constituir em referencial permanente. Eu sabia então o que eram esquerda e direita, de modo refletido e consciente. Já meus algozes ainda apenas sabiam se posicionar em questões imediatas e diretas; todo o restante – que era justamente o que distinguira minha formação – passava ao largo. Dois exemplos explicitam o que quero dizer: apreenderam um livro de capa vermelha que acreditaram ser os “Pensamentos do Presidente Mao”, mas se tratava dos “Pensamentos” de Pascal. Na prisão proibiram a entrada de “Guerra e Paz” de Tolstoi, com um poderoso canhão napoleônico na capa… Na sutileza destas diferenças habita o cerne do processo político-formativo impulsionado pela vida no ambiente desta residência estudantil universitária. No meu caso o resultado foi a mudança do estudo de engenharia na Escola Politécnica ao curso de filosofia, ainda então na Maria Antônia. Mas poderia ter ficado na Poli, como muitos não menos cidadãos do que eu.

Os nexos com a realidade social que aquela primeira pergunta continha eram básicos na experiência que a vida no Crusp significava para cada um de seus moradores, ainda que não se dessem conta. Nem estes nexos eram totalmente, ou até mesmo razoavelmente, explícitos em todas as situações e para cada um dos que ali residiam; e nem sequer eram desejados pelos estudantes. Estes apenas queriam “viver a sua vida” de estudo e de relações humanas, como qualquer estudante em qualquer outro tempo e lugar. No entanto as conseqüências eram produzidas objetivamente; havia uma politização lenta e continuada do cotidiano.

A residência estudantil da USP era um espaço de autogestão democrática que contava com certo apoio da universidade. Reitor no período final da residência, Hélio Lourenço foi cassado pelos militares. Além da evidente presença do movimento estudantil organizado, havia uma intensa atividade de discussão sobre temas não políticos em sentido estrito. Assim se constituía uma experiência social bastante interessante, centrada majoritariamente na crítica ampla e abrangente ao modo de vida institucional, seja no âmbito dos costumes, seja nas concepções culturais, científicas etc. Convencionou-se dizer que era um modo de vida “alternativo”; e era mesmo alternativo a esta vida centrada quase estritamente nas decisões contábeis e competências mercantis iniciada então e hoje dominante.

O Crusp despertava a ira do regime militar antes de mais nada pela sua posição central na organização estudantil, exposta com clareza quando ali se realizou a grande assembléia em que se discutiram as prisões do congresso de Ibiúna e os passos seguintes. Mas também, e isto talvez seja até mais relevante, porque era um espaço público crítico em relação à manipulação ideológica moralizante promovida pelo governo à época. A despolitização da vida universitária fomentada oficialmente tinha ali um contraponto: educação, cultura e ciência eram vistas entre os residentes como sendo intrínseca e necessariamente engajadas.

A política era considerada intrínseca à vida estudantil. Assim configura-se a forma particular da socialização – atenção: nada a ver com socialismo! – ocorrida no Conjunto Residencial da Universidade. A politização era uma experiência não só cotidiana, mas vinculada estreitamente ao cotidiano.

Certamente – e esta era uma situação generalizada naquela época da ditadura militar entre os estudantes – a relação entre indivíduo e sociedade refletia-se com muita intensidade na vida imediata, resultando numa determinada formação pessoal em todos os sentidos possíveis no intervalo entre os muitos que acharam ótimo e os muitos que acharam péssimo. De outra parte – o que constitui o específico da vida na residência estudantil – havia uma grande dependência formativa das condições de vida “concretas” dos estudantes: os conteúdos da socialização precisavam se ancorar e traduzir em experiências vitais do cotidiano, no plano dos estudos, das experiências culturais, das relações pessoais ou da organização do dia a dia. Em suma: uma socialização não “abstrata” ou de imposição “exterior”, de adesão sobretudo estritamente intelectual; mas antes um “sentimento de politização” como experiência vivida e viva. As aspas são aqui utilizadas de propósito para sinalizar com clareza toda a precariedade dos termos referidos. Mesmo aqueles que tem péssimas lembranças da “devassidão” do ambiente residencial, sustentam as suas lembranças em experiências cotidianas em geral diretas e não em conseqüência de alguma ideologia ou doutrinação a que foram expostos. A politização dos estudantes, até porque a rigor eles viviam na própria universidade, e assim viviam “a” universidade, era uma experiência contínua ligada a seu cotidiano, para além do movimento estudantil organizado.

Este obviamente também era um fator muito relevante de politização, mediante as correntes da época: a “universidade popular” e a “universidade crítica” eram as versões “acadêmicas”, de um lado, da esquerda da militância católica da Ação Popular e, de outro, da chamada “dissidência” da esquerda do Partido Comunista. Mas ainda que difusa, a politização sempre existia enquanto presença nos formatos cotidianos da produção artística ou cultural: assim, por exemplo, discutia-se a presença da guitarra na música popular – seria “imperialista”? O que tornava “A Banda” do violão de Chico Buarque tão politicamente correta quanto o eram as músicas de Geraldo Vandré, embora menos diretamente “engajada”?

Os residentes viam filmes, havia coral, jogral, atividades teatrais etc. Nem tudo era política imediata; a cultura como tal fazia parte de uma politização na medida em que seu conteúdo formativo se contrapunha à edulcorada e pseudomoralista tendência da vida cultural oficial do período. Assistia-se a “Os companheiros” ou a “Os fuzis” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, bem como palestras de Paulo Duarte, Maria Alice Foracchi, Mario Schemberg, Jean Claude Bernadet e tantos outros; mas também a música de vanguarda de Tragtenberg, a pintura de Flávio de Carvalho, a critica teatral de Décio de Almeida Prado etc.. Brecht com Ionesco. Preparavam-se passeatas e assembléias, mas também havia variados grupos musicais, vocais, esportivos, de caronistas, de discussão de textos de poesia, de discussões de história da ciência etc., etc. O contato com estudantes de pós-graduação, muitos do exterior, propiciava uma ampliação ímpar do ambiente cultural, seja da Europa, da Ásia e da África. Foi no Crusp que pela primeira vez li Marx e Garcia Lorca – o que não parece novidade – mas também Kafka e Nietzsche; os existencialistas franceses, mas também os surrealistas. O engajamento direto de Joan Baez e o indireto dos Beatles. Os exemplos poderiam se multiplicar; importa apenas destacar a experiência cotidiana na formação de uma politizaçâo assentada em referenciais outros que a domesticada visão encomendada pelo regime e a alienação conseqüente. A própria auto-gestão da residência estudantil pelos moradores e a conseqüente decisão de abrir os blocos de moradia sem o que hoje se denominariam “restrições de gênero” à circulação interna são exemplos de autonomia sustentada numa politização do cotidiano para além da ideologia moralizante da maioria silenciosa em que se havia forçado a massa da população.

A experiência cruspiana, em sua peculiariedade, se confrontava asperamente com o projeto de socialização para a realidade brasileira então desenvolvido como imposição – “ame-o ou deixe-o”! – do regime ditatorial. Este logrou – agora sabemos: de modo muito mais intenso do que imaginávamos, até hoje com conseqüências desastrosas e quase irreversíveis – reconstruir a seu modo a sociedade brasileira. É o processo que com muito acerto Noam Chomski (in Profit over people. Neoliberalism and global order) denominou “norte-americanização do Brasil”. Impôs-se uma modernização mercantilizada e conservadora, que forçou um modo de vida estritamente individualista e consumista como modelo de “ética pública”, exposta em seu dia a dia nas páginas de revistas como Veja. Assim se explica o ódio gerado em muitas famílias paulistanas pela “devassidão” vivida no Crusp, uma construção ideológica para infectar a opinião sobre a residência estudantil entre a classe média comportada, moralista e ingênua.

Provavelmente em nenhum outro espaço público nacional dentro ou fora da universidade vicejaram com tal intensidade as experiências da procura da “praia por baixo do asfalto”, do “é proibido proibir” e do “seja realista: tente o impossível” características do movimento de rebelião estudantil daqueles idos.

Contudo, sabemos agora, era uma realidade social que hoje com facilidade caracterizaríamos como “virtual” para nós; era uma realidade por assim dizer “cultural” – melhor: contra-cultural – referia-se mais a idéias em certa medida “importadas”, do que a conflitos reais provenientes das contradições efetivas provocadas pela dinâmica de modernização da ditadura em curso. Na Europa e nos EUA os estudantes se rebelavam – muitas vezes em conjunto com o movimento operário (A greve de 1968 na França) e um novo sindicalismo – na ressonância de experiências práticas da barbárie – Vietnã, complexo industrial-militar, superconsumismo, limites do Welfare – barbárie que era inerente à “sua” civilização, mas saltava aos olhos enquanto apareciam contradições. Mas aqui tais contradições não eram “efetivas”. Assim como a Maria Antônia era uma “rua na contramão”, o Crusp era um “espaço público na contracorrente”. Por mais que ambos fossem sintonizados aos movimentos operários de Osasco etc., os dois foram corpos estranhos expelidos da experiência nacional em sua modernização conservadora, ainda agora hegemônica após mais de três décadas.

Os militares trouxeram mais asfalto; começaram a realizar possibilidades óbvias ainda sequer esgotadas; e, é claro, proibiram com violência. Mas esta violência não seria refletida como tal, conforme a opinião pública da imensa maioria da população de um país moldado em suas relações sociais na escravidão em convívio com idéias liberais. Foi por isto que as mortes no período de repressão – e assevere-se desde logo: por certo não é o número de vítimas que ameniza qualquer horror, numa contabilidade imaginável apenas para algum guarda de campo de concentração – foram menos numerosas no Brasil do que na Argentina e no Chile, desprovidos deste passado histórico à brasileira, de uma conciliação entre as liberdades formais e o cativeiro material. O Brasil se tornaria um país em “moderno desenvolvimento” aspirante ao primeiro mundo, cujo crescimento justificaria o formalismo de sua democracia.

Na verdade o desenvolvimento da modernidade era ideológico, aparência socialmente necessária como capa da iniqüidade crescente; só a violência era real, efetiva. A esta dupla de modernidade e violência, entretanto, o último país do mundo a abolir a escravidão já estava de há muito habituado. A sociedade de consumo que traduzia esta modernização – e que se efetivou no país apenas com a ditadura – rapidamente apresentou experiências de realização individualista que demonstraram o sentido estritamente formal da liberdade nos parâmetros da vida oficial. Desta existência meramente formal à violência foi apenas um passo.

O Ato Institucional Número 5 constituiu a reação oficial de repressão violenta aos acontecimentos de 1968. Também no Brasil coubera aos estudantes desempenhar a crítica de feitio totalizante, quase sistêmica, à sociedade capitalista, característica daquele período. Isto já sinalizara ao regime o grau de dificuldades a ser enfrentado no intento de estabelecer bases hegemônicas ao seu modelo de sociedade. A ditadura explicitada na verdade se encontrava implícita na sociedade formal construída anteriormente; e assim a repressão do AI-5 foi o instrumento àquela altura considerado mais eficaz para enfrentar as dificuldades no plano da aceitação popular de um modelo aparentemente modernizante mas pautado na prática pela supressão de direitos civis, de sindicalismo atrelado, partidos amordaçados, corte nas políticas sociais com supressão do caráter público e universal do ensino e da saúde e promoção do consumismo individualizante do “american way of life”.

A ditadura construiria bases sólidas para a sociedade nos moldes neo-liberais, estritamente assentada no mercado e com a desmontagem da máquina pública, que desde então se instalou e mesmo hoje não apresenta nenhuma inflexão significativa.

Mas no Crusp desenvolviam-se práticas coletivas de socialização crítica em relação ao modelo da subserviência aos valores mercantis que desde então só se aprofundou num cotidiano dominado hoje por bolsas de valores e índices contábeis e fiscais. As pessoas se reuniam de um modo ainda não tomado quase inteiramente – como hoje – pelos ditames da sociedade de massa e sua indústria cultural. Interesses comuns reuniam estudantes em passeatas ou em grupos de alfabetização em favelas, da mesma maneira que o faziam em shows na TV Record, em estréias de Glauber, sessões de cinemateca, palestras, peças teatrais etc. A medida das coisas parecia ser para nós a experiência comum da dignidade humana associada às mesmas, e não algum valor de mercado a nos tornar distintos em nossa individualidade competitiva.

O regime militar só podia conviver com uma liberdade formalizada. Na medida em que as liberdades foram deixando de ser descarnadas – e a experiência de socialização por que muitos passaram, tal como no Crusp, foi um dos fundamentos para esta materialização da liberdade – o regime começou a balançar, num processo que passaria pela Anistia, pelas Diretas Já, pela Constituinte. Mas com o fim do regime não se transformou o modelo de sociedade; ao contrário: hoje carecemos de espaços de formação de cidadania. As ilhas de experiência da utopia minguaram e se tornaram história. Viva?

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2 Respostas to “EXPERIÊNCIA DA UTOPIA por Wolfgang Leo Maar”

  1. João Batista Pessanha Says:

    Sou Professor e a mesmo estudante do campo da teoria currícular.
    Acessei um número da Revista “Educação e Contemporaneidade” e lí alguns artigos interessante sobre Capitalismo Tardio.
    Muito bons

  2. Vicente Says:

    Prezado Wolfgang. Vale lembrar que consta nos autos da história brasileira que foram os próprios militares aqueles que concentraram todas as forças marxistas dentro das universidades, movimento responsável pela hegemonia desta ideologia nas instituições de ensino até hoje. A esquerda reclama, mesmo tendo predominado na elite falante das universidades e na mídia de massas. O que falta para se darem por satisfeitos: experimentar o irreal? Viver a utopia? Quantas almas já foram ceifadas pela esdquerda totalitária, sem ainda sequer terem chegado perto desse sonho? Queremos mais Gulags em versão atualizada?

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