NÓS E A NOSSA MEMÓRIA por Ana Maria Marques Camargo Marangoni

Artigo publicado no INFORME Boletim informativo da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, nº 44 – agosto de 2008)

Nós e nossa memória

Ana Maria Marques Camargo Marangoni

Professora aposentada da FFLCH

O título “Nós e nossa memória”, acima, tem uma proposital ambigüidade: “nós”, quem?

De um lado, cada um de nós.

De outro, o conjunto de pessoas pertencentes à comunidade desta Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

E “memória”, qual?

De um lado, também a memória de cada um, as lembranças de cada um.

De outro, a Memória da Faculdade e da própria Universidade de São Paulo.

Lamentavelmente, são poucas as oportunidades para a apresentação coletiva de tais memórias, por uma série de razões. Entre estas, queremos dar destaque a uma delas, que funciona como fator inibitório, pelo que temos podido observar: a censura irresponsável dos que acham que lembranças são sempre saudosistas, na linha do “relembrar é viver”, “relembrar é viver outra vez”, do culto ao passado. E isso leva muitas vezes a alguma autocensura praticada pelos que contam com boa memória, são detentores de lembranças interessantes, mas não querem passar por saudosistas como os que costumam afirmar que “bons tempos eram aqueles” em contraposição aos tempos atuais. E assim se perdem inúmeras oportunidades de aproveitamento de lições do passado, de informações que ajudam a explicar os dias atuais.

Exemplifico, aproveitando a oportunidade que me foi oferecida neste período de comemorações de aniversário da fundação de nossa Faculdade: tenho certo gosto por conversar, e posso afirmar que nossos alunos, em grande proporção, também gostam de conversas “a fundo perdido”, de ouvir histórias de outros tempos, de ter acesso a informações sobre fatos e situações que embora banais para quem as viveu, enriquecem seu próprio acervo de conhecimento, significando ferramentas que ajudam a desvendar motivos de suas vivências presentes. É o caso de alunos da Faculdade que não conhecem sequer a estrutura atual da mesma, confundindo Faculdade com a Instituição Universidade, dizendo ou escrevendo que cursam a “Faculdade de Geografia”, ou de História, de Letras e assim por diante: passam a dar atenção a isso quando ficam sabendo que (noosssa!...) a Faculdade (hoje apelidada pelo feio “fefeleche”, que soa tão pejorativo para muitos, talvez por fazer lembrar o termo chechelento), contava até fins da década de 1960, com os Departamentos que deram origem aos hoje Institutos e Faculdades de Educação, Psicologia, Física, Química, Ciências Biológicas, Matemática, Estatística, Geologia …. Interessam-se também ao saber que antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras dava especial e dedicada atenção à formação de professores para a rede de ensino público, considerando de forma expressiva os aspectos didáticos e de conteúdo direcionados para então ensino ginasial, colegial (clássico e científico) e técnico, notadamente, neste caso, o de formação de professores do então chamado ensino primário. E minha experiência tem demonstrado que, a partir de tais informações, as conversas adquirem novos rumos, com novos questionamentos quanto às situações atuais.

Um outro aspecto que merece destaque: o de que o conhecimento de problemas e soluções de problemas do passado podem servir para o equacionamento, a explicação e a solução para problemas presentes. Repisando o acima referido: as lembranças do passado podem ajudar na solução de muitos dos problemas relativos à efetiva formação, que vá além da simples habilitação, de professores; dos problemas de insegurança e , vá lá, de auto-estima dos professores recém habilitados em relação a conteúdos e materiais didáticos; de formas de exposição; de atitudes frente aos alunos e outros, menores, mas que angustiam o professor que admite sua responsabilidade como agente do processo de ensino-aprendizagem. É possível comparar aos de hoje, por exemplo, os seminários em disciplinas de graduação que cursei, em que se adotava um sistema de crítica à apresentação levando em conta a postura corporal e o comportamento de quem apresentasse o seminário (movimentação pela sala, gestos de reforço de expressão, os tons de voz, a atenção aos alunos), a linguagem utilizada (terminologia adequada, correção gramatical, o uso inadequado de gírias, os tiques verbais como “né?”, “ham”, “huuuuum”, “entendeu?”), o uso e adequação de materiais didáticos, o uso de recursos técnicos (giz e lousa, diapositivos, retroprojetores), e, não podia deixar de ser considerado, o tema e o conteúdo apresentado, além da bibliografia utilizada. Parece muito, para os dias de hoje? São detalhes excessivos? Talvez. Mas, sem dúvida, não seria perda de tempo a discussão da importância de tais procedimentos, se o que se deseja, hoje, é melhorar a formação dos professores de nossas escolas, públicas ou privadas.

E se estamos falando em lembranças, um tema para cuja discussão muitas delas podem ser de suma importância: o significado da Faculdade, ontem e hoje, no contexto da Universidade. E isso levando em conta que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras serviu de modelo, em sua estrutura e organização, a um sem número de Instituições de Ensino Superior em todo o país, até mesmo depois que a Reforma Universitária, a partir de fins dos anos 1960, propiciou a criação de novos grupamentos de carreiras em muitas dessas Instituições.

Outro tema cuja discussão deveria ter maiores informações, muitas delas ainda não tendo sido alvo de publicações, e que se apresentaria certamente como motivo para interessantes polêmicas, pelo conteúdo emocional e ideológico que o caracteriza: a organização e a representação estudantil, seus feitos e glórias, seus “causos” e história. Quem sabe os alunos não retomariam o hábito de produzir registros como atas de reuniões e assembléias, de compor chapas com cargos de responsabilidade individual, já que não há mais aquele tipo de repressão que levou à desestruturação de um modelo que pode ter ainda hoje, com as devidas adaptações, grande potencial de aumento de expressão e resultados das agremiações e representações?

Mais um tema: quanto e o que liam os alunos da Faculdade em seus primórdios? E há 60, 50, 40, 30 anos? E hoje? Não conheço nenhuma pesquisa a respeito, e só posso falar com segurança de minha própria experiência. Não é para humilhar qualquer geração, nem envergonhar-me da minha, mas o normal é que os alunos gostavam de ler, ao entrar na Faculdade, e não perdiam esse gosto depois disso. Boa parte tinha lido por gosto, e não por obrigação, muitos dos clássicos da literatura em língua portuguesa . Por isso, e pela amplitude de aspectos de sua vivência, tinham um universo vocabular muito amplo e diversificado. O que permitia, talvez, uma leitura rica em entendimentos e imagens, facilitando o gosto por mais leituras. Havia, pode-se dizer certo escalonamento de leituras, que iam dos gibis – histórias em quadrinhos, aos clássicos da literatura universal, passando pelos romances água-com-açúcar (M.Delly), pelos romances capa-e-espada (Alexandre Dumas), pelos livros de aventuras (R.L.Stevenson, R.Kipling), de ficção científica (Júlio Verne) e de policiais (Conan Doyle, Ágatha Christie), pelas obras de poesia, e assim por diante. E não eram só os jovens das grandes cidades que liam: havia o recurso ao reembolso postal, e as empresas que faziam largo uso desse sistema, com coleções de caráter diverso, por gênero literário, temas ou autores (Coleção Saraiva, Clube do Livro, enciclopédias). Será que os jovens hoje não gostam de ler, ou são poucas as oportunidades de exercício de leitura como lazer que lhe são apresentadas? Com apoio nessas lembranças, e nas possibilidades de acesso à leitura hoje existentes, é que continuo a surpreender-me pelo fato de não contarmos até agora, pelo menos no âmbito da Faculdade, com salas de leitura de lazer, com acervos dedicados ao empréstimo de obras de ficção, com sistema de aquisição tanto de obras de autores clássicos, como de literatura de sucesso momentâneo de vendas, tanto de livros, digamos, de ficção científica como de poesias ou sobre informática.Quem sabe não voltaríamos a ter um maior índice de leitura livros/aluno?

Alongo estas considerações com mais um exemplo de lembranças pessoais que, posso afirmar, estão longe do saudosismo, mas apresentam um momento da vida da Universidade que pode servir para a reflexão, e elas se referem a uma interessante experiência vivenciada durante um certo tempo no campus da Cidade Universitária (CUASO). Por um breve período inicial, a partir da ocupação do Conjunto Residências da Cidade Universitária, o CRUSP, em 1963 (quarenta e cinco anos, já!), um grupo de menos de cem alunos (os Pioneiros) e os que se lhe seguiram, ainda em 1963, puderam experimentar um processo de integração estudantil sui-generis a partir da decisão, proposta pelos próprios estudantes: a de que, em cada apartamento destinado a três pessoas, não pudessem morar três alunos do mesmo curso, e em casos de cursos com muitos moradores (caso da Politécnica), pelo menos se diversificassem as especialidades dos residentes. Embora houvesse alguns apartamentos que se constituíram em exceção a essa sugestão, o fato é que houve uma inusitada integração dos estudantes, com troca de informações e conhecimentos em áreas diversas, com alunos de um curso interessando-se por disciplinas de outros, com a complementação de conhecimentos na realização de trabalhos escolares, e assim por diante. E isso se estendeu a alunos não moradores, a relacionamentos estudantis que se transformaram, mais tarde, em relacionamentos profissionais, em atividades multi e inter-profissionais. Outra medida então adotada foi a referente às bolsas-trabalho; a moradia e alimentação não eram gratuitas, embora subsidiadas em parte (pobreza não era o principal critério para admissão, dadas as características do programa inicial, e os alunos podiam candidatar-se a uma bolsa-trabalho); a originalidade de tal programa era que se valorizava também o trabalho não acadêmico, pois os bolsistas desempenhavam atividades junto aos caixas do restaurante universitário, a contabilidade do conjunto residencial, e trabalhos similares. Cabe lembrar, aqui, que a proposta do programa de moradia em questão partia não apenas da vontade de solucionar problemas individuais de um lugar para hospedagem, mas de um projeto de Universidade, que então se propunha, e em que a vivência entre os alunos tinha merecido destaque.

Enfim, há inúmeras outras lembranças similares em seu potencial motivador para discussões e análises de situação que se fazem tão necessárias nos dias atuais. Cabe aqui desejar que este periódico possa estar dando início a um duradouro processo de registro e encadeamento de depoimentos, o qual por sua vez faça valorizar e incrementar o Projeto Memória da Faculdade, que tão séria e abnegadamente tem sido levado pelos que o desenvolvem.

Quando ler era, principalmente, um prazer

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4 Respostas to “NÓS E A NOSSA MEMÓRIA por Ana Maria Marques Camargo Marangoni”

  1. suria abucarma Says:

    Que alegria Ana ler sobre “nossa vias: USP e CRUSP” A emoção me impede de falar algo a não ser a alegria e de ser uma cruspiana.

  2. Mitika Uchida Says:

    Ana, o seu comentário é o meu também.
    Voce é otima como sempre.
    Crusp: uma parte de nossas vidas.

  3. Mitika Uchida Says:

    Éuma alegria ter compartilhado com voce e outros no CRUSP. Foi com emoção que entrei no seu site e li “NOS E A NOSSA MEMORIA”

  4. Neide Olivia Coan Ferretti Says:

    Ana tenho muita saudades do grupo da Geografia . Ab Neide Coan

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