O CRUSP e os “Pioneiros” por Maria Elisa Quissak Pereira Martins

O CRUSP e os “Pioneiros”

Fui “pioneira” no CRUSP. Meu marido, Francisco de Assis Martins, também foi cruspiano, mas não pioneiro.

Fiz o curso de História Natural e logo após sua conclusão, em 1964, entrei para o Departamento de Zoologia da FFCL-USP. Pedi demissão em 1968, casei-me e fomos para Santo Anastácio, na Alta Sorocabana. Fui professora do segundo grau e na FFCL de Presidente Prudente. Mudamos para Campinas em 1974. Perto de me aposentar fiz o doutorado em Genética na Unicamp. Hoje sou paisagista autônoma.

Meu marido formou-se em Veterinária em 1966 e trabalhou na Secretaria da Agricultura, tendo sido Diretor do Departamento de Defesa Agropecuária da CATI. Ao se aposentar passou a trabalhar no desenvolvimento de “softwares” voltados para a administração agropecuária.

Alguns pioneiros

Marlene Sofia Arcifa (História Natural) – professora do Departamento de Zoologia da FFCL-USP, depois professora da Ecologia de Ribeirão Preto (?).

Yatiyo Yonenaga (História Natural) – professora do Instituto de Biociências da USP. Heloísa de Abreu Alvarenga (História Natural)

Lucinda Campbell (História Natural) – professora do segundo grau.

Hilda (História Natural)

Edna (Direito?)

Ana Maria Marangoni (Geografia)

Mitika (História?)

Chico e Cid da FAU

Maria Antônia Pelegrini (Geografia?)

Maria Aparecida (Pedagogia)

Fernando (Psicologia) – dava aula de inglês para algumas pioneiras

O pessoal da Poli (a maioria):

Kahuan (Rafael ?)

Josué

Janey – namorou a Yatiyo

Lino – casou com a Yatiyo

Carlos Guasco

Odi – casou com a Maria Antônia

Sergio Caporalli

Serginho

Nelson Miashita

Roberto Ogo

Massami

Os “gringos”:

Júlio (Equador) – apaixonado pela Lucinda

Perucho

Paráguas

Os irmãos nicaraguenses que ganhavam algum dinheiro com as fotos que faziam dos cruspianos.

Os bolivianos: Luiz Suarez, Vitor, outro de quem não lembro o nome e Raul, que preferia se dizer argentino por ter morado lá.

Entre os que vieram depois, estava a turma da Veterinária: Francisco de Assis Martins, meu marido, Márcio Quinteiro, Rodolfo Satrapa, Antônio Correia de Toledo Neto e Eicke Bucholtz.

O começo

Os prédios do CRUSP tinham sido usados para os jogos Pan-Americanos e estavam fechados. Houve um movimento de estudantes pela ocupação para moradia, o que era a finalidade original. Um grupo “invadiu” a Reitoria, da maneira mais ordeira e pacífica. Lembro-me de apenas termos ficado lá, sentados nos sofás e no chão da ante-sala do reitor, até conseguir um contato com ele.

Então foi autorizada a ocupação de três andares de um dos prédios: um para meninas e dois para rapazes. Fizeram-nos ver que estávamos assumindo uma enorme responsabilidade, que do nosso comportamento dependiam as ocupações posteriores, exortaram-nos a agir com a máxima seriedade. Então fomos para lá: moças no terceiro andar, rapazes no quinto e sexto. O quarto seria a zona proibida, o que, até onde eu soube, foi respeitado. Desde o início ficamos sob a tutela do Seu Matias, o zelador.

A orientação era para que cada apartamento abrigasse pessoas de cursos diferentes, mas eu, Marlene e Yatiyo, todas da História Natural, demos um jeito de ficar no mesmo apartamento (306). Involuntariamente quebrei ainda outra regra, embora só tenha ficado sabendo disso mais tarde: os rapazes tinham se comprometido a não namorar as Pioneiras, porém o Luiz Suarez e eu namoramos até que ele interrompeu o curso e voltou para a Bolívia. Mais tarde soube que mudou de curso (de engenharia para sociologia), envolveu-se com política, foi preso, torturado e assassinado.

A convivência dos Pioneiros no CRUSP foi uma das experiências mais ricas que vivi. Apesar do pouco tempo de conhecimento mútuo, havia uma fraternidade arraigada, um espírito de colaboração intenso. Realmente assumimos a idéia de que éramos uma grande família. Todos procuravam se aproximar uns dos outros e se ajudar. Ninguém ficava isolado.

Eram feitas reuniões frequentes para discutir os problemas comuns, que não eram poucos. O CRUSP ficava perdido em um grande espaço aberto, em um tempo em que poucos prédios estavam construídos na Cidade Universitária. Não havia iluminação em volta e o circular passava raramente (se não me engano, não à noite). O pessoal que tinha aulas na cidade andava um longo trecho até os limites do Instituto Butantã para pegar o ônibus. Os meninos organizavam pequenas equipes para esperar lá as meninas que chegavam tarde.

Quando chovia ficávamos no meio de um mar de lama. Se tínhamos que ir à cidade levávamos um par de sapatos em um saquinho plástico; ao chegar ao Butantã lavávamos os pés em uma torneira de jardim e calçávamos os sapatos limpos. A lama era extensa e pegajosa, já que o terreno era liso em virtude de terraplanagem. Lembro-me de uma vez, ao voltar das aulas de Paleontologia na Alameda Glete, ter levado um tempo enorme para vencer o trecho de lama, já que o pé tinha que ser “arrancado” dela a cada passo. Em uma das vezes meu pé veio e o sapato ficou.

Todas as noites havia programações culturais, salvo às segundas-feiras. Havia a noite da música erudita, da música popular, da literatura, etc, em dias definidos, todas as semanas. Recebemos lá pessoas reconhecidas em suas áreas, músicos importantes, todos apenas pela colaboração com uma empreitada que valia a pena. Quem se apresentou para nós, nas precárias condições que tínhamos, foi Chico Buarque e sua turma (incluindo a Marieta), Geraldo Vandré e outros que estavam despontando na música popular. Havia um quarteto de cordas do Teatro Municipal, músicos já maduros, que com frequência voltavam lá. Eles pareciam curtir a nossa convivência. Quando não estava em curso nenhuma atividade específica, imperava o ping-pong.

Quando a experiência dos Pioneiros foi avaliada e aprovada, autorizaram a entrada de novos cruspianos. Para as boas vindas aos novos organizamos um baile no Centro Cultural que foi um sucesso! Todos se envolveram na organização e trabalhamos muito para isso, chefiados pelo Kahuan. Na noite do baile, Kahuan estava eufórico.

Pouco tempo depois, em uma de suas viagens para visitar a família em Rio Preto, Kahuan morreu em um acidente de ônibus. Foi a primeira grande comoção dos Pioneiros. A reitoria cedeu um ônibus e quantos puderam fomos a Rio Preto para o enterro. Hoje Kahuan é nome de rua em Rio Preto.

A invasão do CRUSP

O número de moradores já era grande, mais de um prédio estavam ocupados. Houve um aumento de preços no restaurante, que os cruspianos acharam excessivo, e resolvemos fazer um boicote para tentar reverter o aumento. Conseguimos um fogão velho e alguns panelões usados, fomos atrás de doações de alimentos e passamos nós mesmos a preparar as refeições. Havia turnos de trabalho e divisão de tarefas. Nunca lavei tanta alface na minha vida!

A essas alturas já se falava em atividade política entre os moradores, alguns apartamentos eram tidos como ponto de encontro de “subversivos”, porém nada era evidente. Mas uma noite, durante o boicote ao restaurante, alguém de “sentinela” no alto de um prédio começou a gritar: Invasão! Invasão! Ouvindo os gritos desci imediatamente para o Centro Cultural, correndo em direção à entrada, para encontrar uma baioneta voltada para a minha barriga. Em volta dos prédios, 2 ou 3 “brucutus” e soldados armados até os dentes. Impossibilitados de entrar, ficamos por ali a noite toda, até que de manhãzinha a tropa de choque se retirou por entre alas de cruspianos que aplaudiam os “vencedores” carregando os troféus da batalha: os panelões amassados e o velho fogão.

Com o aumento da população no CRUSP e a intensificação da atividade política o ambiente passou a ficar bastante pesado. O “espírito dos pioneiros” se diluiu totalmente no meio de tanta gente, nós mal nos encontrávamos, não havia mais aquela deliciosa convivência dos primeiros tempos. Os boatos sobre a repressão começaram a se intensificar. Muito mais tarde soube de Pioneiros que foram presos e torturados, alguém ficou paralítico, outros exilados.

Aquela experiência maravilhosa, que começou com amizade, alegria, companheirismo, terminou com muita tristeza.

Maria Elisa Quissak Pereira Martins

Anúncios

Uma resposta to “O CRUSP e os “Pioneiros” por Maria Elisa Quissak Pereira Martins”

  1. Marlene Suano Says:

    Quem eu conheci entre os pioneiros foram Peter alemão(da Poli), maria Tereza e Ivani(da Pedagogia) e Sonia Bissoli (Pedagogia e História).

    Quando entrei, em março de 1966, me diziam que a grande tomada do Crusp tinha sido planejada no barzinho atrás da Poli.

    Não acho que a experiência terminou em tristeza, por mais perdas que tenhamos tido. Às perdas de vidas, temos que continuar lhes dando re-significados e um deles é o de permanecer sempre junto aos jovens, pois muitas vezes devemos protegê-los.

    Foi pensando em tudo isso que fui acompanhar nossos alunos na última tomada da reitoria da USP no ano passado. O Lauri estava lá, falando baixinho, sorridente. O Jeová passava apressado e dando ordens, o Arantes estava perdido no meio de uma enorme papelada e pedia uma cerveja….

    Nós continuamos no espírito dos jovens e nossas perdas serão presenças eternas. Apenas, não podemos deixar que elas desapareçam conosco, Peninha.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: