OLÁ, CRUSP! por Sonia Bissoli

Olá,  Crusp!

Ai,Ai,Ai! Como vou começar? Não sei bem direito o que vocês querem, mas, voilá!!

Sobre o início do CRUSP, a invasão, não me é possível falar, pois não participei dela.. Quando me mudei para o CRUSP ele já estava todo organizado. A Glória, do Zé Maria e o Malaman, poderiam, entre outros contar sobre isso, pois sei que participaram da invasão. Os motivos até que sei alguns: a distância da Cidade Universitária, a grande quantidade de estudantes do interior, muitos sem condições de pagar pensões ou apartamentos. Isso tudo somado ao fato de já existirem os prédios construídos para os Jogos Pan Americanos ( de 63) vazios , com toda estrutura já pronta, levou aquele

grupo de pioneiros à invasão e a formação de um dos maiores conglomerados estudantis da época e um dos mais intelectualizados e politizados, talvez não só do Brasil, mas da América do Sul . Era a USP! A bomba estava armada. E em que época? 1964! Querem mais?

Para mim, existiram 2 momentos na minha vida: os fora do CRUSP e os momentos passados dentro do Crusp. Lá fora a realidade era a de sempre: casamento, descasamento, trabalho, luta para vencer ou só sustentar a família, perdas, alguns ganhos, aposentadoria, velhice e… recordações . Dentro era diferente. O CRUSP era um mundo fora dessa realidade. Para mim isso foi bem perceptível, pois eu era mais velha que a maioria dos cruspianos. Já havia passado por um casamento, já havia morado em outros Estados, já havia sentido o desprazer de morar em pensionatos. Quando cheguei no Crusp eu me deslumbrei . Voltei ao passado, aos meus sonhos de jogar pela Federação Universitária, defendendo a USP, no time de vôlei do Crusp, participar do teatro do Adalberto, cantar, excursionar de carona pelo país. Para quem tinha 18 anos na época, talvez não sentissem essas mesmas sensações, mas para quem tinha 28, isso era o máximo.

Até a comida, que muitos reclamavam, eu adorava. No entanto me vi obrigada a participar do boicote ao restaurante de CRUSP, afinal eu era uma cruspiana. Durante esse boicote as refeições eram feitas ao ar livre e ai surgiu a Estiva, um grupo formado pelo Mineiro, Malaman, Criolo, Sílvio Preto, Álvaro, etc…que tinham a função de buscarem as sacarias com os mantimentos em Pinheiros (acho que no Mercado). Lembro-me do dia em que a esposa de Reitor foi até lá, pedir “meninos parem com isso”. Logo paramos, não pelo Reitor mas, porque não era nada fácil cozinhar para tantos. Mas valeu.

Os melhores momentos no Crusp, para mim eram os horários das refeições, onde todos se encontravam, apesar das bolotas de purê de batatas que volta e meia se levava na cabeça. Numa dessas vi uma discussão homérica entre a Edna Felizardo e o Álvaro. Entre, não, porque só a Edna falou.

Outros momentos gostosos eram os que passávamos no Centro de Convivência. Uns jogavam cartas, outros ping-pong, alguém tocava piano, outros assistiam TV (quando alguém não tirava a válvula da mesma) , outros conversavam. Adorava ouvir as filosofias do Salinas. Onde anda esse povo todo?. Às vezes vinha algum cantor famoso, ou palestrante idem, ou ainda algum filme cult. Lembro-me de um episódio hilariante, quando estavam passando um filme do Bergman. Numa das cenas uma mulher se masturbando. O silêncio era total e aí se ouve de alguém do fundão: Abaixo a ditadura! Foi só risada.

Ao contrário do que “lá fora” pensavam, os cruspianos eram conservadores. No momento histórico que se vivia: movimento de contracultura, hippies, liberdade sexual, etc….moças não entravam nos prédios dos rapazes e vice-versa. Havia uma preocupação com o comportamento ético. As manifestações de amor e desejo eram às escondidas. E lá havia muito lugar para se esconder. È bom lembrar que São Paulo, nessa época, também era muito provinciana. Eram difíceis prédios onde os rapazes pudessem levar alguma garota para os seus apartamentos. Hotéis, também, só casados. Mas no Crusp era para ser diferente. E não era! Mesmo assim, engravidei morando no Crusp e foi justamente por causa da gravidez que tive que me mudar de lá. O crusp não aceitava grávidas!

Algumas figuras lendárias e históricas habitaram o crusp: a Preta, Amarela e o Xerife , eram os os 3 cães cruspianos e estimados e criados coletivamente por todos nós.

Quando a Preta morreu vi muito marmanjo chorando depois de ler uma homenagem, afixada no mural do Centro. O Xerife era bravo, quanto “carreirão” levei dele. Ele era mais graduado que o soldado Roberto que ficava lá no Crusp. Isso era o que dizia a insígnia no seu ombro. ( feita não sei por quem., também).

Tarzan, morador do bloco C e que toda a noite pontualmente soltava seu grito característico e todos então batiam nas venezianas de alumínio para saúda-lo. Foram incontáveis os momentos os momentos de descontração que vivemos juntos, como a formaçãos das duas torcidas da Banda e Disparada no festival de musica da Record ( 66 ou 67 )

Haviam também os momentos tristes, quando perdíamos algum amigo, quando o exército invadiu o Crusp de madrugada, a batalha do bloco C, a prisão de companheiros. Pensávamos que isso era o fim. Mal sabíamos o quanto iria piorar. Quantos amigos mortos, torturados, presos, desaparecidos e exilados. Depois disso o Crusp já não era mais o mesmo. Havia medo e desconfiança. Lembro-me das aulas na Historia que eram contidas.

Em 67, grávida, do que alguns chamaram a primeira cruspiana….que vingou (Gente maldosa!!!!!), mudei-me para uma casinha , na Rua Camargo, no Butantã, que eu chamava de Crusp II .As histórias dessa casinha são muito ternas, pois ela meio que recebeu o pessoal que vinha fugindo da repressão, porém como éramos unidos a ponto de não nos prejudicarmos e eu tinha um bebê de meses, ninguém buscou abrigo definitivo por lá…. eles passavam, pegavam uma fruta, ou nos davam um beijo, ou comiam o resto da papinha do bebê do jantar e logo iam embora. Foi surpreendente o carinho e a emoção do Lauri ( morto no Araguaia) com a minha gravidez. Ele ajudou a pintar a casa e foi um dos que mais trabalhou. E foi nessa casa que o vi pela ultima vez. Ele apareceu um dia, descalço, junto com o Mineiro e Álvaro, como se estivessem fazendo uma via sacra de despedida e, no dia seguinte fiquei sabendo do seqüestro do avião para o Chile feito por ele.

Nessa casa do Butantã, havia um pequeno porão onde sempre eram colocados as cestas e baús de companheiros engajados em alguma luta contra a ditadura. Eu me arrepiava pois a coisa estava ficando preta. Lembro-me de um deles que deixou um baú enorme, de madrugada e no dia seguinte foi preso. Na madrugada seguinte um outro foi lá buscar. Quando o Crusp foi fechado o corredor da garagem da casa, que não era coberta ficou cheio se “tralhas” dos colegas que foram pegos de surpresa e não tinham onde deixar as suas coisas que tomaram chuva e sol até conseguirem se acertar.

Ah!, em tempo, os conteúdos de muitas sacolas do porão foram enterrados no quintal, e ainda estão enterrados por lá!

Essa história nunca tem fim, pois o crusp ta dentro de cada um de nós e viveremos um novo capitulo com o encontro do dia 29 de novembro.

Espero ter colaborado por enquanto

Abraços saudosos

Sonia

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Uma resposta to “OLÁ, CRUSP! por Sonia Bissoli”

  1. Diomar Says:

    Oi Sonia, não sei se te conheci, mas tenho um comentário sobre o conservadorismo do CRUSP, e aqui conservadorismo quer dizer conservadorismos sexual. Grande parte dos moradores vieram do interior, mas principalmente de uma mentalidade anos 50. No Crusp nos atualizamos para os anos 60, mas só fomos virar cosmopolitas no final dos 60,quando já não estavamos mais no CRUSP!
    Diomar
    PS Voce é a Sonia do Malaman?

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