VIVÊNCIAS QUE MARCAM UMA VIDA, por Serrano

Vivências que marcam uma vida

A experiência me ensinou que as pessoas carregam, ao longo da vida,  as marcas que lhe deixaram relacionamentos e atitudes que tiveram nos anos de juventude, época que lhes propicia vivências definidoras em questões de caráter e escolhas existenciais. Participei, no sábado passado, de um evento que reuniu pessoas que dividem, há 40 anos, o privilégio de terem sido moradores do Conjunto Residencial da USP, o CRUSP, no período de 1963 a 1968. Eu fui um deles, tendo morado lá durante o ano de 68, quando ainda freqüentava a Escola Politécnica, que deixei em 70, trocando-a pela ECA, para abraçar o jornalismo.

Mais de 500 ex-cruspianos e acompanhantes apareceram no Colégio Notre Dame, no Bairro do Sumaré, na capital paulista. Fomos parar lá movidos por dois objetivos: marcar a passagem dos 40 anos da tomada e ocupação do local pelo Exército em 17 de dezembro de 1968, quatro dias depois da decretação do AI-5, o ato institucional do governo militar, que abriu o período mais repressivo do regime de 64 e dar início à recuperação e construção da história do Conjunto Residencial no período.

O que vivemos nas dez horas que durou o encontro, isso mesmo, dez horas, foi surpreendente. Foi como que se a energia de todos nós, dispersa pela súbita diáspora que a expulsão nos impôs, se reconcentrasse naquelas dez horas de muitas recordações, conversas, surpresas, lágrimas e muita alegria. O mais importante, que ficou patente e era esperado, é que o encontro mostrou que nossas escolhas existenciais da época nos marcaram definitivamente.

Adianto, a seguir, um resumo do que pretendemos contar sobre o CRUSP, aproveitando o texto do release que distribui à imprensa para divulgar o evento, tomando a liberdade de apresentá-lo, aqui, na primeira pessoa pois, como disse, eu estava lá em 68.

O CRUSP nasceu à fórceps. Projetado como conjunto residencial na Cidade Universitária para os estudantes da USP, só foi construído diante da necessidade de abrigar os atletas que participaram dos Jogos Pan-Americanos de 1963, realizados em São Paulo. Após o encerramento da competição, foi invadido pelos  estudantes para que cumprisse a finalidade para a qual fora projetado: abrigar alunos de fora da capital paulista, sem condições de bancar sua  moradia durante a duração de seus cursos.

Naqueles cinco anos de funcionamento, o CRUSP foi  fonte inspiradora e alimentadora do movimento estudantil brasileiro e de vivências existenciais, culturais e políticas criativas, transformadoras e de contestação à  repressão imposta ao país a partir de 1964 – que desaguaram nas grandes manifestações de 1968, ano síntese do engajamento da juventude do País e do Mundo em pról da liberdade e da justiça social.

Durante todo o período, passaram pelo CRUSP em torno de 2500 estudantes. No dia da ocupação pelo Exército cerca de  1400 alunos moravam oficialmente no conjunto residencial, sendo que aproximadamente 800 estavam em seus apartamentos na madrugada de 17 de dezembro, pois muitos já haviam viajado para suas cidades de origem para passar o Natal e o Ano Novo com suas famílias.

O Exército mobilizou tanques e táticas de guerra, com soldados se deslocando de árvore em árvore, protegendo-se  atrás de morretes e bancos de cimento, à espera de uma reação que jamais ocorreria. Todos os moradores se entregaram pacificamente e foram presos. Uns saíram rapidamente da prisão outros passaram longa temporada nela, quase sempre sem explicações. E trataram de reconstruir suas moradias pelos bairros de São Paulo, principalmente Pinheiros, Butantã e Vila Madalena, todos com grandes dificuldades, e continuar seus estudos. O tempo ajudou a maioria a superar as dificuldades, mas uns poucos sucumbiram ao brusco corte que o fechamento do CRUSP representou em suas vidas.

Ao contrário do que se propagava e passou erroneamente para a história, o CRUSP era um espaço em que viviamos como os demais estudantes, apenas gozando de mais liberdade e do privilégio de uma moradia a que não teríamos acesso com nossos próprios recursos, pois éramos de famílias de fora da capital, do interior do Estado de outras regiões do País  e até mesmo do exterior. Ali estudávamos, namorávamos, jogávamos baralho, freqüentávamos o restaurante, a Banca da Cultura, o Bar do Crusp, dançávamos nos bailes, praticávamos esportes, assistíamos e fazíamos  teatro, shows, assembléias.

Sintonizados com o espírito da época, reivindicávamos – e muito. E quando às nossas reivindicações eram contrapostas negativas injustificadas tomávamos a iniciativa de conquistá-las. Assim se deram as invasões dos blocos F e G, para abrigar estudantes aos quais se negavam vagas, da tomada do ISSU-Instituto de Serviço Social da USP, por causa da deficiência de seus serviços, a tomada da lavanderia, a resistência à derrubada dos blocos, I,J e H, a participação intensa,  no movimento estudantil da época. Mais do que intensa, pois o CRUSP era um dos principais espaços em que o movimento estudantil discutia estratégias a seguir diante da dramática evolução dos acontecimentos políticos do país, principalmente em 1968.

A vivência no CRUSP, naquela época, deixou na maioria de nós, hoje na casa dos 60 a 65 anos de idade, já avós, quase todos  com carreiras profissionais bem sucedidas, a lembrança de termos vivido em um espaço privilegiado, em um momento privilegiado, que marcou, para sempre, nossa existência e o modo de vermos o mundo. Fomos beneficiários de um projeto de residência estudantil, posto em pé graças às próprias iniciativas e lutas dos estudantes, que deveria existir em todas as universidade públicas,  pelo menos. Mas que um dia foi fechado arbitrariamente por um regime politicamente conservador e retrógrado, empenhado em sufocar a liberdade e nunca mais foi reaberto nos mesmos moldes, apesar do país viver há 23 anos em um regime democrático.

O CRUSP semeou uma geração de cidadãos e cidadãs interessados em construir um mundo melhor e mais justo, atitude que norteou o resto de nossas vidas. Nós nos reencontramos para começar a resgatar a história daquele espaço mágico, onde, provavelmente, vivemos um dos melhores períodos de nossa existência. Não apenas com o intuito de registrá-la, mas para que ela também sirva de exemplo para que outros jovens tenham a mesma oportunidade.

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